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Entreaberto


Quem convive estreitamente comigo sabe que eu tenho um vício quase doentio de manter gavetas e portas fechadas. Sabe quando o guarda-roupa fica entreaberto por que a manga de uma camisa ficou do lado de fora? Quando os compartimentos da cômoda dão uma emperrada? Ou a gaveta da escrivaninha não fecha por conta do excesso de papel? Eu sou a louca que não consegue dormir enquanto não se levantar e fechar uma por uma.

Ultimamente eu andei me questionando o porquê de alguns desses extremismos: ou fica aberto, ou fica fechado. O meio do caminho me incomoda. No meu quarto e na minha vida, naquilo em que eu realmente me importo, não simpatizo com incertezas. Ou é, ou não é. Gosto de tudo bem feito: palavras ditas, lençol limpo, desculpas entregues, bronca dada, dever cumprido. Tenho afeição por rotinas e um senso de justiça que me persegue dolorosamente. No jogo de antônimos, ou é preto, ou é branco. Ou vai, ou fica. Ou cumpre tudo o que se fala, ou simplesmente se cala. Ou abre, ou fecha. Sou dessas mulheres que, ou carrega um transbordo no coração, ou uma ausência nas costas.

Não passo muito tempo desperdiçando força para segurar metades.

Não tenho segredos: algumas das minhas gavetas guardam bagunças; outras, escondem vazios. Eu não hesito em abri-las sempre que é necessário, mas, ao fechar, não admito deixar nenhuma brecha. Sobre excessos e faltas, bem sei que até hoje ambos me fizeram mal. Mas sobre o bem e o mal, gosto mesmo de enfrentá-los cara a cara. Ao fim do dia, não deve haver espaço para que eles possam se misturar e me confundir. Por isso, sempre que eu notar uma porta meio aberta, uma gaveta meio fechada ou uma meia verdade sobre o travesseiro, eu não vou ter sossego enquanto não levantar da cama para confrontá-las. E mesmo conhecendo o preço, sei que valerá o esforço. É por que, para mim, gavetas fechadas são como consciência limpa: eu só durmo depois de ter certeza delas.

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