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Eu me perdi quando me transformei em você



A gente se perdeu num abraço engessado, tão logo nos conhecemos. O destino desatinado que enroscou meu braço no teu de gesso também traçou nossa improbabilidade. Éramos demais para ser para sempre. A coisa toda desandou naquele dia que pedimos uma pizza sem cebola, e você me pediu em casamento por sermos parecidos. Parecidos demais até.

Eu gostava de azul, você gostava de azul. Eu gostava de música A e você ouvia as mesmas músicas A e depois eu fui buscando gostar de tudo aquilo que você gostava, porque me amarrava muito naquilo que você ouvia, que você via, que você curtia. Você era cult. Aí que fiquei ponderando sobre aquele ditado popular: "os opostos se atraem" e questionando como foi que nos atraímos sendo tão nós mesmos, descobrindo tanto de você em mim e tanto de mim em você. Sempre tive medo desse sentimento exagerado e dessas coincidências absurdas. Então eu entoava O Teatro Mágico: "os opostos de distraem, os dispostos se atraem" e concluí que as similaridades eram poeira perto da nossa disposição.

Nessa ânsia de me aproximar de ti, acabei por mergulhar em tudo aquilo que era você só para somar mais pontos em comum. E te adianto o que hoje sei: foi um erro imenso. Passei a me perder nas tuas entrelinhas, me anulando ao máximo sem nem perceber. Mentia à mim mesma ao negar que gostava de determinado gênero musical, mentia à mim mesma ao negar que via aqueles filmes bobos e "sem conteúdo"... Foram tantas as mentiras que passei a ser uma mentira também. Quando me dei conta, quando me acenderam para o mundo de novo, eu arrumei as malas, te assoprei um beijo úmido de sal e parti embora, te deixando estático, mudo, no meio daquela sala pequena.

Sobrou muito do que você não tinha para dizer? Fui embora carregando todas as preposições que couberam na mala e me alimento delas como se realmente não houvesse mais nada para comer. É tanto de, desde, em, entre. E me basta. Me basto. Voltei a ser-me por completo, com todos os sabores que carrego no peito, com todos os quereres e gostares, sem vergonha de soar ridícula ou infantil, vezenquando. Acho que, se não tivesse perdido tanto de mim, talvez não perderíamos a gente, ainda que ficasse só aquele fiapo frouxo de riso e aquele montão de nós sem rima, de poemas sem finais e de nostalgia escondida nas páginas datilografadas puídas com o tempo.

Você sabe — e bem sabe — que de tudo que foi, eu sinto falta das palavras. Sinto falta do tom da tua voz quando lia um poema, sinto falta da poesia sem rima e dos filmes franceses. Eu queria escorrer por baixo da tua porta e entrar de mansinho nas tuas gavetas só para ler as palavras que você rasurou depois daquela data, ver se me encontro no meio das linhas desconexas e ler as linhas novas, cheias de novo amor e tão lindas (aposto) quanto todas as outras.

De tudo que ficou para trás, só um detalhe eu queria aqui na frente: tua poesia.


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