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Feminicídio: você também pode ter sangue nas mãos


Você também ficou escandalizado com o assassinato de Tatiane Spitzner? Então vem cá:
  • Você acredita que há mulheres que motivam a violência doméstica?
  • Você acha natural que homens olhem para mulheres na rua como se elas fossem um pedaço de carne no açougue?
  • Você controla o que sua companheira fala ou veste?
  • Você acredita que, ao usar roupa curta, a mulher está pedindo para ser assediada?
  • Você enche a boca pra chamar uma mulher de “puta”, quando ela tem um comportamento que é moralmente aceito quando vem de qualquer homem?
  • Você acha normal insultar o brother chamando ele de “mulherzinha”?
  • Você entende que é obrigação da sua mãe fazer as tarefas domésticas e lhe dar tudo nas mãos?
  • Você rotula constantemente sua parceira de louca, exagerada, dramática, histérica?
  • Você acha que há mulher “que procura”, porque se envolve com homem “que não presta”?
  • Você trata sua parceira como uma propriedade, e acha que gritar, ofender e humilhar ela são apenas consequências de um simples descontrole?
  • Você ensina seu filho pequeno a levantar a saia da coleguinha na escola e ri orgulhoso disso? (“Macho que nem o pai!”)
  • Você se acha na razão de chamar de vagabunda uma mulher que trai, e quando um homem faz o mesmo, no máximo ele é um “vacilão”?
  • Você justifica que comportamentos desse tipo são da inerentes à natureza masculina, mesmo não conhecendo nenhum estudo científico a respeito?
  • Você julga mulheres por sua aparência e se sente elogiada quando um homem inferioriza outras ao seu lado?
  • Você acredita realmente que a diferença salarial que existe entre homens e mulheres em todos os cargos, níveis de atuação e escolaridade é uma simples coincidência?
  • Você joga na rede vídeos íntimos com sua ex para se vingar dela, ou compartilha esses vídeos, por que acha que mulher que faz sexo é desvalorizada?
  • Você costuma questionar a veracidade de uma denúncia de agressão quando vem de uma mulher?
  • Você se preocupa mais com os danos que uma suposta falsa denúncia de agressão vai causar ao homem acusado injustamente, do que com os danos na vida das 1.273.398 brasileiras que mantêm na justiça processos referentes à violência doméstica?¹


Então, deixa eu te contar uma coisa: você também assassinou Tatiane. Na pirâmide da violência de gênero, Luís Felipe e o feminicídio estão lá no topo. O estuprador da garotinha de 4 anos, no Rio de Janeiro, também. Na base, sustentando tudo isso, estão as suas brincadeiras inocentes, o seu assédio sutil, a sua agressão bem-intencionada, o patriarcado velado.

Tatiane morreu por MACHISMO.

E se você compactua com o MACHISMO, ainda que em pequenas porções, ainda que nas menores atitudes, ainda que sem a pretensão, você está sustentando assassinos, estupradores e agressores. Você está ajudando para que, todos os dias, o país contabilize três Tatianes assassinadas em condições semelhantes. Você está dando sua singela contribuição para que, a cada 10 minutos, uma mulher seja estuprada. Você está colaborando com um sistema que agride 606 mulheres todos os dias

FONTE
Então, repense sua postura. 

Tente enxergar o que está por trás de todos esses hábitos que você julga normais. Experimente desconstruir. Não adianta ficar escandalizado com a morte de Tatiane hoje e ajudar a criar e a fortalecer Luís Felipes todos os outros dias. Decida de que lado você está.

Este texto foi originalmente escrito em 2016, quando o assassinato de uma jovem chocou a cidade de Vitória da Conquista, na Bahia. Jéssica Nascimento morreu aos 21 anos, depois de ficar 15 dias em coma após ser agredida por seu ex-namorado, Américo Vinhas Neto. Jéssica estava grávida de quatro meses. Apesar de ter tido sua prisão decretada, Américo continua foragido até hoje. Em um de seus depoimentos, ele disse não se lembrar do que aconteceu.

Depois que o caso de Tatiane Spitzner veio à tona, nas últimas semanas, e comoveu todo o país, eu me lembrei deste texto. Assim como Jéssica, Tatiane morreu após ser brutalmente espancada. As câmeras de segurança do prédio em que ela morava, em Guarapuava, no Paraná, mostram a advogada sendo agredida pelo marido, Luís Felipe Manvalier. As filmagens revelaram ainda Luís Felipe arrastando o corpo de Tatiane, após supostamente tê-lo atirado do quarto andar, e limpando as marcas de sangue no caminho. Apesar disso, Luís Felipe nega o assassinato. Em seu depoimento, ele diz não se lembrar do que aconteceu.

Após algumas atualizações no texto, eu substituí o nome de “Jéssica” por “Tatiane; e o de “Américo” por “Luís Felipe”. É aterrorizante perceber que esses nomes poderiam ser substituídos por tantos e tantos outros. De cada 12 mulheres assassinadas no Brasil todos os dias, três são vítimas de feminicídio. Ou seja, o crime envolveu violência doméstica e familiar ou menosprezo e ódio à condição de mulher. Entre as negras, esses números são ainda maiores (enquanto a taxa de homicídios de mulheres brancas diminuiu 8% nos últimos 10 anos, o de mulheres negras aumentou em 15%).² De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), esses dados colocam o Brasil como o quinto país com a maior taxa de feminicídios no mundo.

Antes de perder a vida, muitas dessas mulheres já estão inseridas em um círculo de violência, que pode envolver agressões física, psicológica, patrimonial ou sexual. É possível que muitas dessas mortes fossem evitadas, caso elas tivessem recebido algum tipo de ajuda. Em 2016, 66% dos brasileiros presenciaram uma mulher sendo vítima de agressão física ou verbal. Mais da metade deles não fizeram nada a respeito.³ As pessoas que viram e ouviram Luís Felipe agredindo Tatiane também não fizeram nada.

Se você conhece uma mulher que vive situação de violência, ofereça apoio. Se você testemunhar uma situação de violência, meta a colher. 

Omitir-se diante desse cenário é ajudar a perpetuar a cultura que nos cala, nos subjuga, nos violenta e nos mata todos os dias. Ser conivente com qualquer forma de machismo é carregar sangue nas próprias mãos.



¹ Conselho Nacional de Justiça  | ² Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018 | ³ Fórum de Segurança Pública 2017 e Instituto Datafolha

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