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Meu mundo secreto


Quando eu era pequena, sempre que me deparava com algo ruim, eu tinha a capacidade, o poder de me transportar para um mundo secreto. Ah, eu fazia isso com uma facilidade tamanha!

Era um lugar incrível, mágico mesmo, onde todas as preocupações cessavam. Bastava adentrar nele e todos os problemas desapareciam. Lá era só alegria, tudo se transformava em brincadeira, riso e felicidade.

Vários motivos me levavam pra lá: briguinhas com minha melhor amiga, com o irmão mais novo ou a irmã mais velha que não queria emprestar suas roupas, pais discutindo, morte dos avós, aquele menino lindo do colégio paquerando a menina mais velha do colegial, alguma nota baixa nas provas...

O tempo foi passando, fui crescendo e, como muitas coisas na vida da gente deixadas pelo caminho, esqueci meu mundo secreto lá trás. O tranquei em algum lugar do meu passado ou do meu inconsciente.

Segui vivendo.

Agora, adulta, diante de tantas decisões a tomar, problemas a resolver, quando dias cinzas surgiram diante de mim e nada os fazia colorir de novo, como um flash, lembrei do mundo secreto, lembrei que talvez houvesse um lugar onde tudo pudesse finalmente se resolver.

E, num exercício de concentração absurda, muito distante da facilidade com que eu fazia isso quando menina, atravessei o portal e cheguei de novo ao mundo secreto, décadas depois. Lá, encontro a garotinha que eu fui, cabelinhos dourados, feliz da vida, jogando bolinha de gude e subindo na pista de skate, porque não era com bonecas que eu brincava...

Ela se assusta um pouco. Não sei se pelo fato de uma intrusa invadir assim, sem mais nem menos, o seu mundo secreto, ou se a imagem que vê não é bem o que ela esperava dela mesma no futuro...

Fato é que ela me pergunta o que estou fazendo lá, e eu digo que fui lá tentar apagar alguns probleminhas que teimam em ficar por perto, deletar tristezas que insistem em impregnar em mim, achar soluções para questões complexas da minha vida e da vida de outras pessoas que dependem de mim, quando então a galeguinha me interrompe e diz:

— Pode parar! Aqui é mundo secreto de criança, onde dá para resolver só coisas fáceis. Para essas coisas chatas e complicadas aí de gente grande, aqui não tem solução não, só você pode solucionar, e lá no seu mundo real!

Sabe, eu tinha esquecido como aquela garotinha era atrevida e espevitada, sempre à frente do seu tempo! Foi bom vê-la de novo.

Mas, como num passe de mágica, lá estava eu de novo, olhando pela janela da sala, dia cinzento lá fora, ora a chuva vindo bem fina, ora ameaçando tempestade, e eu ali só olhando, sem me decidir se saio na chuva ou fico aqui esperando a tormenta passar.

Tantas definições diante de mim, mas eu só consegui pensar em fazer uma coisa com muita urgência: procurar nas caixas empoeiradas sobre o armário meu futebol de botão e no sótão da casa meu carrinho de rolimã.

Assim que a chuva passar, vou chamar os meninos da rua pra brincar.

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