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Do quarto andar - parte II


Tentativa de suicídio era o que todos diziam até eu consegui chegar ao quarto de seu Manuel. O dia havia amanhecido sem muitas mudanças para mim. Mesma sequência de comprimidos, aquela vontade de desligar o despertador, só que o fiz com um pouco mais de rapidez. Queria muito chegar ao hospital e saber como estava aquele homem que despencou do céu sobre mim.

Ele estava em coma.

Não puder ouvir sua voz. Guardaria ainda o grito de socorro do nosso primeiro encontro. Perguntei a enfermeira se algum parente estava com ele, ela me disse que um rapaz, que parecia ser o filho, havia passado mais cedo, mas não quis ficar com o pai. Nem sequer levou os pertencentes do senhor. Ela me deixou entrar um pouco, depois de muita insistência e eu afirmar que fui a primeira que deu socorro a ele.

O quarto estava quieto, somente o velho e o barulho dos aparelhos mantendo sua respiração. Ao lado da cama tinha um cadeira, me permiti demorar alguns minutos. Eu não entendia porque toda aquela comoção em relação a ele, mas de alguma forma me sentia no dever de estar ali. Sensação estranha, eu sei, mas meu subconsciente não queria outra ação. Fiquei alguns minutos matutando ideias malucas na cabeça, até o perguntei o porquê de ter se jogado, embora soubesse que não iria ter respostas. Ao sair, a enfermeira me parou no corredor e me entregou um pequeno caderno.

— Você parece se preocupar com ele, leve isso! — disse entregando o objeto.
— Volto amanhã para vê-lo! Espero que saia logo dessa situação.

Segui para o trabalho com o caderno no banco do passageiro gritando, ainda que em silêncio, para eu abri-lo. Imaginei que talvez algo ali pudesse me dizer algo sobre a vida daquele homem. Chegando no trabalho, a primeira coisa que fiz foi folhear as páginas do livreto, que mais parecia um diário, algo mais íntimo. Logo naquele dia em que eu estava mais emotiva, a abri uma página qualquer do mini diário e acho que encontrei o motivo para qualquer pessoa querer curar uma dor:

"Minha amada Luzia, quanta falto sinto da seu abraço. Hoje não consigo mais trabalhar, vou deixar o serviço para amanhã. Quem sabe a noite, num sonho, você não me aparece e me dê forças para continuar?!? Nosso filho foi embora hoje, acho que ele não suportou a ideia de ter perdido a mãe. Não posso culpá-lo, mas me culpo todos os dias por não conseguir fazer absolutamente nada para te deixar aqui conosco, todos os versos agora parecem não fazer sentido. Meus livros já não me bastam, eu perdi minha inspiração para essa doença macabra e silenciosa. Já não tenho razões para continuar rabiscando papeis. Eu não te tenho mais aqui, então não quero mais continuar aqui. Meu coração dói, sinto que ele sangra todas as vezes que penso em você. Hoje eu vou te encontrar, nem que eu tenha que dormir para sempre, eu dormirei para poder encontrar teus olhos novamente. Com todo amor do mundo, seu Mané."
Meus olhos ficaram marejados, engoli em seco todas as lágrimas que se formaram no canto do olho. Terminei meu expediente aquele dia com uma única intenção: ir até o prédio de onde ele se atirou e descobrir o que havia acontecido. Quem era seu Manuel?! 

Chegando no local o porteiro me deu algumas informações. Dona Luzia, a amada de seu Mané, havia morrido há algumas semanas, o câncer se instalou de forma silenciosa e quando descoberto, não houve tempo suficiente para lutar contra ele. Seu Manuel só queria dormir para sempre e ver novamente sua esposa. A mulher que o inspirou a escrever vários livros.

O apartamento do qual ele caiu foi o primeiro lar dos dois, antes de seu filho nascer. O porteiro me disse que o velho tinha visitado o lugar com muita frequência depois da morte da mulher. Passava noites em claro ouvindo as músicas dos discos de vinil de dona Luzia. Até aquele dia em que ele resolveu que queria dormir para sempre. Ele não queria se matar, ele queria dormir para sempre e encontrar as mãos que lhe ofereciam o melhor carinho do mundo.

Ele queria olhar nos olhos da amada mais uma vez, só que ele não souber pedir ajuda de outro jeito.

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