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A menina que roubava céu


A janela era grande, e ficava aberta, e o sofá encostava no parapeito, e havia o céu. E no meio de tudo isso vivia uma menina com olhos de jabuticaba. Durante tardes ensolaradas, escalava o sofá para debruçar-se sobre o céu. E havia as nuvens, e formatos, e movimentos. E ela sentia os ramos das jabuticabas crescendo até alcançarem o azul, e lá em cima ficavam desenhando sonhos e desanuviando ares. Ficava naquele devaneio, até não saber mais o que era desejo e o que era céu. O que era universo e o que era seu?

– Desce daí, menina!

Por essa mania de liberdade culpo minha mãe. Era por ordens suas que a janela ficava aberta cortando as cortinas, e o sofá mais estreito posicionado logo abaixo, encostando-se ao parapeito. Era mais que um casamento, era uma união de cumplicidade. Eu observava tudo, de jabuticabas atentas, sentindo-me parte daquele diário plano silencioso. Eu não deveria subir para não estragar o sofá, mas quebrava as regras porque tinha fome de nuvens. Então, sempre que minha mãe estava ausente ou ocupada demais para notar aquela cena, lá estava eu, roubando pedaços do céu.

Eu queria mais que aquilo – eu queria ser céu. Frequentemente, recorria a uma caixa de perfumes onde guardava fitinhas coloridas, dessas que manda a lenda amarrar três vezes e fazer três pedidos. Então cultivava uma coleção de fitas nos meus punhos e tornozelos, cada qual carregando uma nova esperança e o nó de um pedido em comum: um par de asas. Esperava por muitos meses o momento em que as fitas já desgastadas e sem vida se romperiam, para que o meu desejo fosse enfim atendido. Enquanto isso, eu também escrevia pedidos a Papai Noel. E orava, toda noite, silenciosa.

Eu ganhei uma Barbie, um urso de pelúcia gigante, um teclado cheio de músicas ao qual apelidei de “conitário”. Ganhei roupas, ganhei um mago que acendia as bochechas, ganhei casinhas de montar. Ganhei coisas que crianças ganham durante a criancice. Mas, ano após ano, nunca chegou o meu par de asas. E então um dia, de tanto plantar minhas jabuticabas no céu, elas amadureceram e despencaram. Foi quando eu me dei conta de que já não me debruçava mais na janela. Crescida que estava, a posição começava a ficar desconfortável.

Eu nunca ganhei o meu par de asas. Não desses que tinham as borboletas que fiz minhas amigas. Não desses que usavam os meus super-heróis favoritos. Mas só depois de deixar meus devaneios nas nuvens, descobri que há uma janela aberta dentro de mim. Então eu entendi que havia parado de roubar pedaços do céu porque já possuía um depósito imenso deles. Vi a minha janela interior me mostrar que não há limites para olhos de jabuticabas e para sonhos alados. Que eu não preciso de fitas ou orações: o céu é meu, em tudo o que está ao meu redor. É meu e vive à minha espera. Eu mastigo uma porção de nuvem em cada café da manhã para não esquecer o sabor do que é ser livre, do que é flutuar pelos caminhos que sopram o vento com as raízes guardadas carinhosamente numa caixinha de música. Eu cravei em minha pele um desenho daquilo que mora dentro de mim, colorindo as minhas cortinas e fazendo casulos no meu (para)peito.

Da minha janela, eu vejo que a vida é um imenso céu. Eu não tenho um par de asas, mas descobri que posso voar.

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