icones sociais

Poesias escritas no canto da boca

#plural de @apenasmaisumogro e Mafê Probst
Ela chegou linda.

Usava um vestido preto, deixando escapar metade das coxas. Os pés eram emoldurados por um sapato de salto alto. Nas mãos, tinha as unhas delicadamente pintadas de vermelho. Poucos anéis. Andava com maestria de passarela, pisada firme e decidida, ombros retos. Olhava para frente – olhava para mim. Encarava-me com uma malícia sutil... Foram anos estudando aqueles olhinhos felinos. Escancarava um riso ao me ver lhe notando.

Ela chegou linda... Mas seu sorriso, chegou mais lindo ainda.
_

Ele chegou “foda”!

Eu não me contive ao avistá-lo do alto da escada e pensei alto que era o melhor “puta que pariu do dia”. Ele amava meu jeito desbocado de encaixar palavrões para explicar as emoções na vida. Ele vestia um blazer azul marinho bem escuro, um tom bem fechado, uma camisa e calça pretas, sapatênis. Que raiva! Mas ele vestia aquele olhar insultantemente educado que me desnudava no primeiro instante. Tentei me conter, mas sorri.

Ele chegou “foda”... Mas seu olhar chegou mais “foda” ainda.
_

Ela estava leve e linda.

Colocou o braço sobre meus ombros, espichando-se na ponta dos pés. Deixou-me um beijo doce no canto dos lábios e se saiu apressada, espevitada, assanhada. Gostava desse jogo de não-pertencimento. Dizia sempre, com a voz mais doce do mundo: “tudo o que você quer, você tem que conquistar”. E eu tentava, dia após dia. Estendi um drink — negroni, seu preferido. Combinava com as unhas dela. Ela segurou com graça, sem desviar-me o olhar. Bebericava de leve.

E seguia linda.
_

Ele estava viril e voraz.

Tive que me conter ao sentir aquele perfume amadeirado me invadir ousadamente os pensamentos. Ele ainda tentou sutilmente me beijar, segurando-me com uma das mãos cheia de vigor, mas me esquivei, o enlacei apenas com um braço e deixei ele apenas me roubar um selinho de canto de boca. Sua barba rala encostou em meu ombro e quase me tira do prumo, mas mantive a ideia de primeiro ser conquistada sem me entregar. “Você não vai fazer isso comigo!” Disse ele com o mais lindo sorriso largo e meu drink preferido na mão. Eu tremi enquanto segurei a taça tocando em suas mãos e bebi uma pequena dose lambendo as bordas enquanto brincava com a língua na casca de laranja. Ele me dissecava com o olhar.

E seguia voraz.
_

Intensa. Quente. Minha.

Assim termina nossa noite. Eu desenho os adjetivos com a ponta dos dedos em suas costas nuas. Pondero se os adjetivos são para nossa noite, ou para essa mulher, deitada de bruços com o sorriso nos lábios. O suor ainda ilumina seu rosto sereno. Seus olhinhos felinos me esquadrinham milimetricamente, detendo toda minha atenção. Suas pernas continuam com espasmos involuntários, deixando-a corada e fazendo-a se esconder no travesseiro...

Tão intensa. Tão quente. Tão menina... E minha.
_

Intenso. Quente. Meu.

Eu poderia dizer que nossa noite terminou, mas não sei por quanto tempo ainda esses espasmos de prazer que sinto agora ainda manterão minha respiração intercalada. Eu o sinto desenhar poesias em minhas costas e lembro da hora que declamou poemas dentro de mim com o olhar, com a voz, com a boca, com a língua, com os mesmos dedos que agora rabisca juras de amor no suor misturado de nós dois. Eu estou inteiramente suada e vermelha, escondida embaixo do travesseiro enquanto recobro o fôlego. Deixei ele me roubar um selinho de canto de boca. O safado roubou docemente o meu coração...

Tão intenso. Tão quente. Tão menino... E meu.
_

Amanhecemos. Nus. Nossos.



#plural de @apenasmaisumogro e Mafê Probst

Comentários

Instagram