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Sobre perdas e ganhos


A gente não perdeu o último capítulo da novela. Nem aquela partida de futebol. Não perdeu o show que todos passaram meses esperando, nem o dinheiro que guardamos no bolso da calça e não encontramos mais. A gente não perdeu um dia sem ir à academia. Não perdeu nem mesmo o vestibular. A promoção, o ônibus, o campeonato de pôquer, a namorada, a unha quebrada: não, a gente não perdeu.

O que a gente realmente perde na vida é a própria vida. Todo o resto é soma. No meio das trivialidades do dia a dia, vira e volta a gente se atrapalha com os cálculos nas pontas dos dedos e acha que fomos subtraídos. Não fomos. Todo dia que chega ao fim nos mostra uma operação com tudo aquilo que nos pode ser acrescentado – basta que a gente saiba utilizar o sinal correto.

Porque as perdas de verdade são as perdas da alma. A verdadeira subtração é sentida de dentro: um pedaço de nós que é apagado sempre que a vida precisa desenhar um ponto final. É quando irreparavelmente a gente perde a companhia. O sorriso. O som da voz. O cheiro. Os planos. A gente perde o calor do abraço e as risadas involuntárias. Perde o afeto, a certeza, a clareza. Perde abstrações tão concretas que o vazio deixado provoca uma dor realmente física.

E o coração – esse rebelde teimoso – vai querer gritar pelos quatro cantos tudo o que lhe foi tomado. Porque o amor, na consciência de sua grandeza, autoafirma-se eterno. E então ele sempre vai achar que qualquer tempo é cedo demais. É por isso que a cada ponto final que a vida nos impõe, o coração responde com uma interrogação. Sobre as perdas, há uma verdade que todos sabem: nós nunca estamos preparados para elas.

E o coração – esse mesmo rebelde teimoso – vai continuar querendo falar mais alto. Quando as lágrimas cessarem junto com os porquês, a gente vai conseguir escutar o amor sussurrando baixinho que tudo aquilo que é tocado pela sua eternidade não morre. Porque o que foi acrescentado em vida continua fazendo parte do quociente. Faça as contas comigo: as fotografias, os aprendizados, as descobertas, as gargalhadas, as histórias pra contar – tudo ainda é parte da soma. Ainda que sejam interrompidos, eles continuam fazendo diferença no resultado final. Sobre os ganhos, há uma verdade que poucos sabem: eles são realmente eternos – porque o amor é maior que tudo, até mesmo que a própria vida.

Ao querido Raikar,
em agradecimento a todos os sorrisos que ele somou às nossas vidas.
E a todos aqueles que a gente perdeu cedo demais.
(novembro/2018)

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