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Ter ansiedade é viver na corda bamba


Ah, a ansiedade... Ela está tanto tempo aí, que é quase de estimação, não é não?

Quando tem algo novo para fazer, quando é preciso dizer sem se arrepender, a tendência é que não chegue nem a dizer.  É digitar rapidamente as palavras no teclado, entrando numa briga infinita com o corretor que fez escrever tudo errado. ERRADO. Como dói essa palavra! Só de pensar que errou; em pensar no erro daquilo em que você foi falha...

Ansiedade é o olhar aflito dos ponteiros do relógio, acompanhados do tiquetaque que aumenta o som a cada toque de segundo. É ter um compromisso daqui 72 horas e já estar pensando em cada passo a ser dado. E, falando em passo, não se pode pensar em tropeçar no caminho... Vish, já é tarde! Já pensou, e muito provavelmente, chegando lá, tropeçou. Se for um encontro, que desastre! Já entra em prantos.

É pensar demais e pensar em nada ao mesmo tempo. E esse MAIS faz o coração acelerar e esse NADA faz a respiração desregular. As mãos tremem, o choro chega na garganta e forma um nó e depois desce. É uma confusão de pensamentos e sentimentos angustiantes que deixam os sintomas cada vez mais intrigantes. Quanto mais se pensa no sintoma, mais se sente ele. A sensação é quase de morte — beber água nesse momento é um gole de sorte.

É tomar o café da manhã corrido numa padaria da esquina, vendo tv, mexendo no celular, nem sentindo o sabor da comida, mas já pensando no que vai ter para o jantar. Quando alguém convida para um happy hour, passa o dia todo trabalhando com a perna balançando, e é impossível não pensar no sono do dia seguinte. Receber um convite inesperado para uma festa — cinema, sorvete ou qualquer coisa que não esteja programado — é um desespero, um turbilhão de sensações entre agradar e não chegar atrasado. Programar as férias, terminar um TCC, fazer um casamento.. Minha nossa, que desanimo só de ler.

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Se sentir uma dor no pé, já vai logo pensar o quão dificultoso será o caminhar. Ter um desconforto qualquer e já se automedicar na ilusão da cura. É sentir o coração pular do peito por um despertador para cada causa e efeito, caminhar apressado e preocupado. É a dor de barriga da viagem quase perdida, é ressaca no dia anterior antes mesmo do shot de tequila, é sentir o cheiro da fumaça antes de fazer o fogo, é apertar o número do andar sem nem mesmo ter chego a portaria. É lamentar antes do juiz apitar o fim do jogo.

Querer atravessar tudo de uma vez, tentando dar conta dentro da cabeça, como se fosse mais de um, mais de três. Estar sempre à frente — de si mesmo e do próprio tempo. É como viver num mundo paralelo onde cada um possui uma ampulheta particular que se vira e revira antes mesmo da areia terminar. Bagunçando tudo, jogando para o ar os sentimentos. Trazendo um enorme cansaço sem nem mesmo mover um membro.

É se culpar todos os dias por alguma coisa que fez ou deixou de fazer, se martirizar por não ter dito algo que, na hora que ela bateu, o medo chegou e você esqueceu. Se julgar pelo próprio desejo. Assistir noticiário, é batata! Ela vem e mostra pra você o quanto o mundo é cruel e perigoso, tudo em volta de repente se torna cinza e qualquer passo em falso pode ser uma ruína. É uma invasão de impotência por querer acabar com a fome na África e não poder, mas não dar conta nem de cuidar da própria vida, quem dirá a miséria vencer?

Acompanhar uma série em tempo real é quase uma tortura. Ver uma mensagem no whatsapp de “tenho que te contar uma coisa depois” é quase levar a loucura — na cabeça já passaram mil possibilidades e provavelmente alguma infelicidade.

Ter ansiedade é como viver na corda bamba entre o passado e futuro, enquanto o presente é a rede que se estende embaixo, repleta de aventuras e experiências a serem vividas, que acabam ficando escondidas. É mergulhar num oceano de emoções que, às vezes, faz rir e chorar, gritar e querer quebrar o que está ao redor. E nas profundezas buscar motivos e desculpas ocultas para não se arriscar, para não viver.

E não pense que ansiedade é sinônimo de precaução.

É tanto a se pensar, é tanto para arrumar, que cansa só de imaginar. É que só de visualizar um desafio, ele se torna um problemão. Uma possível perda, já é ela por si só. Dá medo, dá vazio e arrepio.

E que adianta tanta pressa se deixamos para trás o que interessa? E aí vai deixando, as contas para pagar, a matrícula para renovar, as oportunidades passar.

Então se você tinha alguma dúvida que a ansiedade é algo mais comum que se imagina, saiba que tudo isso é um descritivo do cotidiano de um ansioso. Não se trata de uma muleta para se apoiar.

MUDE, lute! 

Pois como todo bicho de estimação, ela cresce e se fortalece da dose diária que você mesmo dá como alimentação.

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