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De cabeça para baixo.


Era uma tarde normal de sábado. Ensolarada, fresca e agradável. A garota, prima coruja, compareceu na apresentação da prima caçula e, logo em seguida, foi ao encontro do pai, no sítio, a uns 17 km para fora da área urbana da cidade. Seria um dia qualquer na vida da garota, se não fosse o fato dela ter saído antes dos pais do sítio, afinal, a vida na selva de concretos teria tudo para ser mais interessante.

Voltava calmamente para a casa, levantando poeira daquela estrada de barro e cantarolando a música que tocava no rádio. A garota gostava da sensação de dirigir. Pega de surpresa por um carro andando no meio da pista, ela obrigou-se a desviar deste, pegando, por sua vez, uma pedra desagradável no meio do caminho. Pronto, a merda estava feita.

No instante em que passara pela pedra, ela perdera o total controle do carro e, inexperiente, pisou no freio na vã tentativa de reduzir a velocidade que o carro se encontrava e dominar o mesmo.

Aconteceu tudo muito rápido. O deslizamento do veículo na areia, a visão do barranco, o barulho, o desespero e, em míseros segundos, estava tudo de cabeça para baixo. A garota estava pendurada pelo cinto de segurança com a cabeça latejando, os fios louros escuros a vista. Levou algum tempo para poder se situar da onde estava. E de como se encontrava. Tremendo, levou a mão ao gatilho do cinto e se desprendeu do banco, sentando sobre o teto e do que restava do vidro dianteiro. Com a claustrofobia começando a lhe tomar conta, a garota recorreu a janela do motorista, entreaberta, e saiu pela mesma.
Estava perdida, sozinha, em estado de choque, no meio do nada com porra nenhuma. Tinha perdido o celular na confusão e, sendo assim, perdido a possibilidade de avisar quem quer que fosse. Lá estava ela, chorando sentada, observando as quatro rodas pro ar daquele carro.

Como um anjo, apareceu um carro branco lhe oferecendo ajuda. O dono do carro branco sabia aonde o pai da garota se encontrava e saiu, levantando mais poeira, para avisar a ele que sua filha estava bem, mas que houve um pequeno problema com o carro qual dirigia. Pronto, estava salva e não iria ficar mofando por muito tempo naquela terra seca.

Assim como todo bom brasileiro, que sente cheiro de tragédia a distância, logo aquele fim de mundo estava repleto de boas almas curiosas tentando ajudar a garota aos prantos. “Calma minha mocinha, agradece a Deus que você ta viva”(...)

Após um longo abraço na mãe e o alívio de ver rostos conhecidos, a garota entrou mais uma vez em estado de desespero e soltou mais lágrimas do que já tinha soltado. Deram-lhe chá para acalmar e a proibiram de dormir, por precaução.

A menina nunca sentiu tanto medo e nunca se sentiu tão grata por ter saído apenas com os dois joelhos roxos de dentro daquele carro. Mesmo que em pequena escala, sim, ela nasceu de novo.





Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

Comentários

  1. Em pequena proporção??? Em enorme proporção ela nasceu de novo!!!

    É verídico?

    Beijão

    Mariliza

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  2. MEU DEUS!!!

    Ainda bem que nada de mais grave aconteceu!
    Nossa! Nasceu de novo MESMO!

    bjks

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  3. Ui ja vi esta cena antes, e confesso que senti um arrepio na espinha só de ler ....

    Eu estava em viagem de férias com minha família, tipo véspera de Natal, transito louco. Dia de chuva, odeio dias de chuva e ter que pegar estrada.

    Meu pai diz: " Que cara louco, querendo me ultrapassar na curva ..."

    Olho pelo retrovisor do carro ... não tinha ngm .. olho de novo, o carro tinha acabado de deslizar na pista e entrar num barranco , e nossa sorte foi que ele deslizou pro lado contrário ao nosso, pq ele estava ultrapassando, se ele desliza pro nosso lado, tinhamos ido os dois pra um precipício bem do nosso outro lado.


    Aflições a parte, paramos num posto próximo, e pedimos ajuda.
    Eu super nervosa, se pudesse tinha parado la mesmo, mais meu pai disse que era loucura, que a pista molhada, podia causar mais acidentes ... estrada perigosa.

    E eu até hj imagino se a pessoa ficou bem ou não ... espero eu que sim.


    Bjos!

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  4. aconteceu mesmo?
    sorte?
    aias sorte nao,Deus!

    .*

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  5. Preso na tua mão amarrotado papel
    Que largas no meio da rua
    Consagrando a certeza, eu e tu,
    Somos a luz que continua

    A lonjura desenha uma cruel ironia
    Cobre o sentimento, no vale da distância
    Deixa gravada no basalto negro
    A tua doce lembrança

    Boa semana

    Profético beijo

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  6. Muito bom o texto !

    Ela nasceu de novo, concerteza !

    A historia é veridica ?

    :*

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