icones sociais

AS MENTIRAS QUE EU TE CONTEI


Eu menti quando disse que gosto de Machado, Beethoven, Tarantino, Dostoiévski e colunas sociais e de tecnologia. Todo esse cult me cansa. Nunca tive coragem de te contar, mas em muitos dias o que eu gostava mesmo era de me aconchegar em um sofá pequeno debaixo de um cobertor, ligar a TV em um programa de auditório qualquer, rir por qualquer bobagem, ouvir a sua respiração e simplesmente não pensar. Tentei parecer inteligente algumas vezes pra te impressionar, mas no fundo, eu não sei se posso passar muitos dias sem ser um pouco besta.

Eu menti quando disse que me basto. Não conte pra ninguém, mas às vezes – só às vezes – eu queria conseguir acreditar em algo que nunca me deixasse sentir só. Eu juro que são apenas naqueles momentos em que o real não pode me abraçar com o conforto que pede a alma. Mas você me conhece o bastante pra saber que, no fundo, eu sou uma cética teimosa. Tem razão, também nunca consegui conviver com certas amarras, e sei ainda que isso sempre te incomodou. Mas eu falava a verdade quando dizia pra você não criar esperanças de conseguir mudar esse meu lado torto.

Eu menti quando disse que não me importava. Te confesso, se você pudesse ver por um breve momento como eu ficava a tua espera, não iria acreditar. Se algo parecesse dar errado, eu me devorava por dentro. Até que ouvia os ruídos dos seus passos, e o mar revoltado em que derramei a minha tempestade virava um simples copo d’água. Muitas vezes fingi indiferença, mas na verdade, até as pequenas coisas mexeram comigo. Eu trabalhei cada detalhe, inclusive todos aqueles que você nunca percebeu.

Eu menti quando disse que adorava a tua macarronada. Alguma coisa naquela mistura de queijos me enjoava, mas eu sempre me esforcei muito para não transparecer. Isso também justifica o meu excesso de ketchup. O gostoso mesmo era ver o jeito com que você levantava os olhos disfarçadamente, só para ver minha reação ao levar o garfo à boca. E depois, a forma com a qual nos jogávamos na cama com as barrigas e pálpebras pesadas e, atrapalhados, embalávamos no mesmo sono.

Eu menti quando disse que só restou indiferença. Na verdade, às vezes – só às vezes – eu também sinto um pouco de saudade. São as horas em que pareço escutar o seu riso, desafinado e desengonçado, um riso gostoso, chamando pro aconchego. Mas então percebo que na verdade ele ecoa lá do fundo da minha memória. E então eu vejo – não sem antes relutar – as cenas em que rimos juntos. O nosso plano era mais que a eternidade, lembra? Mas a gente se perdeu no meio da estrada… o caminho do sempre é muito longo, nós já devíamos saber.

Assim como eu também já devia saber que essa conversa de ser forte era pura balela para enganar a mim mesma. E olha como eu estou: cansada de carregar tanto de mim que você não conhecia. Meus ombros cederam à fadiga, e hoje estou aqui, pela primeira vez me entregando por completo. Mas não se exalte – isso não significa ceder ou perdoar. É que quero tocar a vida sem levar nada teu, nem mesmo as farsas. É vontade de seguir em frente. É a minha vontade.

E, se é pra falar mesmo a verdade, essa foi a minha última mentira.


Instagram