EU ACHEI QUE ERA AMOR


A gente se esbarrou por uma coincidência da vida. Entramos no mesmo bar, na mesma hora e conhecíamos as mesmas pessoas. Você puxou um banquinho e se sentou ao lado meu, eu te estendi a mão e um sorriso. Teus olhos roubaram a atenção dos meus e, sem me dar conta, eu já estava fixada na tua. Você pediu um chope, eu pedi outro.

— Achei que você pediria algo mais feminino. — você disse. Eu cancelei o chope e pedi uma taça de vinho, ignorando o calor. Teu riso irradiou para mim e eu acabei sorrindo também – mais uma vez sem me dar conta.

Você me deu um abraço e me puxou para um beijo. Eu retribui e me enlacei na tua. Engatamos um relacionamento sério, sem ser. Eu era o teu beijo de boa noite e o abraço das manhãs, mas não éramos nada durante o dia, salvo uma música ou outra, trocadas entre e-mails divertidos.

Saímos outra vez. Você me chamou para jantar na tua casa e eu fui. Você me olhou de cima à baixo e reclamou dos meus sapatos sem salto. Dizia gostar mais das minhas pernas mais alongadas e pedia (pedia?) para que eu nunca mais usasse, entre um beijo na nuca e outro puxão de cabelo. Não tinha como não ceder. Cedi. À esse pedido e outros tantos.

Não prenda teu cabelo, deixa crescer...
Não gosto dessa cor na tua unha...
Batom vermelho não fica bem contigo...
Você devia emagrecer.
Para de comer chocolate.

E fui aceitando. Mudando. Moldando. O cabelo chegou quase na cintura, eu fazia as unhas toda semana, joguei fora meus batons escuros, abandonei as rasteiras e sapatilhas e todo novo encontro passou a ser um martírio. Eu pensava vinte vezes antes de escolher uma roupa para vestir, porque tinha que estar sempre impecável. Eu precisava da tua aprovação, todo tempo – tempo inteiro. Fui me perdendo de mim.

E parei de comer.

Eu achei que era amor, sabe? Todo esse cuidado, todos esses elogios. Cada vez que eu cedia à algum pedido teu, eu me sentia a mulher mais incrível do mundo. Você era bom nos chamegos. Você era bom em retribuir cada vez que eu mudava um pouco. Passei a achar normal não dividirmos a ducha e sair sempre pronta e impecável do chuveiro. Passei a achar normal ter uma refeição só por dia, na neura de emagrecer. Passei a achar comum sermos eu e você – e ninguém mais. Passou a ser rotina excluir amigos e família. Porque bastava eu e você, desde que eu estivesse EXATAMENTE do jeito que você queria.

Eu achei que era amor e, por amor, cedi.

(...)

Eu me despedi de você usando chinelos.

Eu pesava quarenta e sete quilos, mesmo tendo um metro e setenta e dois de altura. Chorava cada vez que minha mãe me obrigava a comer. Mesmo ainda achando que era amor, eu resolvi me amar primeiro e fui me despedir usando chinelos. Você reclamou dos meus chinelos antes de associar o que eu tinha acabado de dizer.

Eu achava que era amor, e cada pedido teu de ‘fica’ me desmanchava inteira. E eu continuei partindo, porque tuas desculpas eram vazias demais. Eu fui, você socou a parede e me disse, com toda a ira do mundo: se sair por essa porta, não precisa mais voltar.

A porta se fechou com um baque surdo. Meu coração se despedaçou em mil pedaços. Eu me remontei inteira só para te agradar porque achei que era amor.

Mas não era.



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