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GUARDEI A SAUDADE NA CAIXA


Dia desses eu tentei te escrever uma carta. Sim, uma carta de verdade, não um e-mail ou uma mensagem qualquer, mas uma carta com papel, caneta e uma porrada de sentimentos. Existe uma mágica que acontece quando escrevemos, com pressa a letra sai até meio torta, ou quando estamos com raiva e forçamos um pouco mais a ponta da caneta a letra sai grossa. Em algumas até podemos notar alguns círculos estranhos, como se alguém espirrasse água no papel e, por fim, eram apenas lágrimas que caíram ao longo do desabafo, da despedida, da declaração ou das lembranças. Enfim...

Aqui estou eu enrolando falando da carta, só pra fugir do motivo dela. É que faz tanto tempo que não escrevo para você, que já nem sei mais como começo. Escrevo sempre sobre você, em tudo quanto é canto, mas quando tenho que te dirigir a palavra alguma coisa em mim faz um barulho estranho, como se minhas engrenagens travassem ao lembrarem do teu nome, mas a verdade é que não sei bem o que dizer. Talvez as palavras tenham se perdido nesses anos todos, talvez elas apenas estejam guardadas num cofre, em algum canto da memória. Sei não, acho que a carta era uma despedida, pra falar bem a verdade.

Lembro que estava sentada ao teu lado na cama, enquanto você dormia. Era setembro, ou final de novembro, não lembro bem, mas lembro que era difícil decidir se escrevia te olhava dormir. Me lembro que comecei com a ideia de despedida, mas no meio da linha você se mexeu e abraçou minha perna. O que era despedida se tornou declaração e eu tive que começar tudo de novo. Um piscar de olhos e lá estava eu, voltando no tempo, falando sobre como eu me senti quando nos conhecemos e foram tantos os parágrafos sorridentes. Tentei lembrá-los, mas te olhei novamente e você soltou minha perna, me dando as costas lentamente. Uma lágrima surgiu e manchou a tinta da última linha. Você me soltou e virou as costas para nós por tantas vezes que seria impossível narrar todas elas em uma única folha.

Lembrei que em algum momento do que vivemos eu parei de te escrever e quando voltei você já não quis mais ler. Você sequer estava lá. Teu espaço na cama era ocupado por quatro travesseiros que eu abraçava apertado até conseguir dormir. Eu quis confessar que te escrevia todas as noites contando meu dia, como era difícil sem você naquela casa enorme só pra mim. Te escrevia contando que eu parei de cozinhar quando vi que apenas um prato seria feito. Escrevia, sempre deixando respingar saudade no meio da tinta azul, e te dava boa noite em pensamento. Durma bem, onde quer que esteja. Até algum dia. Te amo.

Até que, aos poucos, o sono chegava antes que o caderno pudesse ser aberto e falar com você, ainda que através de linhas, já não era fundamental. Até o dia em que me peguei sorrindo, desenhando borboletas em folhas espalhadas pelo chão. O tempo passou e eu nem vi. Em que ponto te ter na minha rotina se tornou dispensável? Você passou e eu nem percebi, até que em uma das minhas mudanças encontrei essas cartas guardadas numa caixa. Qualquer dia eu te mando, ou não. O fato é que enquanto tentava lhe escrever, sentada ao seu lado na cama, depois de tanto tempo, me lembrei dessa caixa e aí a carta passou a ser sobre lamentação. Lamentei tudo que perdemos ao longo dos anos. A sintonia, os detalhes, as miudezas da vida a dois. Lamentei nossos erros, nossas fraquezas e principalmente nosso silêncio. Calamos, quando tudo que precisávamos era de um pouco mais de diálogo.

Te escrevi em tantos cadernos, cheguei ao final de muitas folhas, borrifei minha saudade tua em papel de carta, guardanapo, papel-toalha e folhas perdidas com o tempo. Engraçado, mas nunca cheguei ao final de nenhuma delas. Talvez um dia eu realmente volte a te escrever com frequência. Por enquanto, tudo acaba naquela caixa que já não tem muito espaço sobrando. Por enquanto continuarei sendo silêncio, lembrança, despedida, lamentação e... Gratidão. A última palavra eu não mencionei, né? É que faltou espaço. Talvez eu te explique da próxima vez. Talvez eu guarde minha gratidão numa caixa, pra abrir quando a mágoa resolver incomodar. Por hoje é só e... Durma bem, onde quer que esteja. Até algum dia. Te amo, ainda.


Ps: Me perdoe por não ficar pra ver tua reação ao ler a carta. Você demorou pra acordar e acostumei-me a ir embora sem esperar muito. Talvez eu tenha aprendido a gostar de desenhar borboletas...


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