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PARA UM SAGITARIANO


Um amor que já estava morto, veio lento, veio longo e se estendeu feito pano na areia. A gente havia se esquecido de que ainda doída aquela dorzinha no canto do corpo de quando se abraça de lado. Era estranho olhar pra você meio de relance e descobrir que amor também pode ser passageiro e que não é menos belo por causa disso. Minha vulnerabilidade por trás da frieza era tão óbvia, você rapidamente se apossou dela. Senti seu toque todo de novo e me pareceu menos distante do que antes. Às vezes amar pouco, é sentir um tanto demais.

Seus olhos, seus trejeitos, nada novo, mas tudo de alguma forma diferente ou indiferente, não soube dizer. Era você uns anos mais amadurecido e eu também mais velha, ainda assim como a menina de outrora. Difícil aceitar que as coisas mudam sem que a gente se sinta mudado. Éramos dois ali, mas quatro. Irreconhecíveis versões do passado e agora versões do presente sem pretensão de futuro. 

Suportar o fim sempre me pareceu doloroso demais. Talvez por isso essa mania de sonho que me acompanha feito sombra ou assombração. Os ventos o trouxeram de volta para que dessa vez fosse embora homem feito ou para que eu fosse mulher de partir? Não me sinto mulher, não me sinto nem mesmo humana. Sou onda reduzida à espuma, que se dissolve e se espalha rasteira em sua insignificância. Cair no mesmo erro é, de fato, tolice, mas tentador.

Os erros antigos têm um ar de primavera inacabada. E eu, que nem mesmo artista, tenho o dom de me fazer pintora quando me deparo com quadros seminus. O que fez mal a gente esquece e, por isso, esta aura de criança boba, que perdoa sem muitos rodeios e já quer voltar pro colo. Há quem me chame de trouxa. Mas trouxa não sou, pois não carrego as roupas sujas comigo, pelo contrário deixo-as de lado e me livro logo dos pesos.

Meu coração tem natureza sutil e meus sentimentos se manifestam ainda mais sutilmente com o pudor de pré-adolescência não superada. É errado não ter aprendido a ser grande? Ser pequena é um dos meus charmes e acompanha o rubor das bochechas menos volumosas que antes. Seu sorriso de poeta morto é nem por isso menos encantador, mas não consigo brigar com alguém que simplesmente não briga de volta.

Seu silêncio faz parte dos lábios e suas raras palavras soam como música que ninguém ousa cantar junto. Que me perdoem os poetas formais, mas a despretensão faz do homem comum o maior deles. O amor? Talvez não faça parte de quem faz versos. Ou quem sabe tenha extraviado na longa estrada, muitas vezes não tão longa assim.

Eu o encontrei como quem encontra no outro a si mesmo. Reflexo que foi se desfazendo quando as primeiras gotas de choro tocaram sua frágil superfície. Seu coração para sempre terra devoluta, onde adentra luz, mas não calor. Esperar por você é como esperar dia de natal que não chega, é bolo que não assa e ,de tanto abrir o forno, murcha. Eu havia desaprendido a ser triste, ainda que a tristeza fizesse parte de mim. E não saber ser triste é aprender a conviver com as coisas mortas e frias e solitárias como se fossem porções de si mesmo.

Foi quando você reapareceu e me ensinou o pesar e que a válvula de escape da tristeza é a própria infelicidade.


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