Entremuros


Entre nós dois há muito mais do que os outros veem. Há, inclusive, muito mais do que falamos. Há amor, ódio, carência, dor, desespero. Ansiamos um pelo outro como o dia anseia pela noite. Não nos fazemos bem, mas não conseguimos ficar separados. 

Queremos tanto que nos tornamos viciados. Viciados no outro, na projeção de nós mesmos. Dormimos juntos e acordamos com ressaca. Nos embriagamos de nós. Choramos, sofremos e começamos tudo de novo.

Não mais, agora chega. Chega dessa relação doentia. De querer ser quem não sou, de me perder totalmente em você e não conseguir me encontrar. Dessa batalha não sairemos vivos, então prefiro sair enquanto há tempo. Ferida, mas viva.

Despedaçada, mas com a certeza de que viver é mais do que uma sucessão de “se”. É um existir de verdade. Portanto, adeus meu amor. Nosso fim chegou. Não será fácil, mas com o tempo poderemos pegar os caquinhos e construir um novo castelo. Um em que os pedaços de vidro não me cortem, mas mostrem o quão bela eu sou. Entre nós dois há muito mais do que os outros veem. Agora, existo sozinha.



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