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Eu decidi matar você pra mim


Eu decidi matar você dentro de mim. Foi de uma hora para outra, mas resultado de meses de acúmulos de tristezas e frustrações. Não me pareceu certo ficar me corroendo desse jeito, sabe? Eu alimentava algo que me machucava um tanto. Já disse tantas outras vezes: amar você... dói. E se eu sei que dói, porque me manter tão sadomasoquista assim? 

Entre um gole de vinho e outro, entre uma foto deletada e outra, eu decidi matar você para mim.

Falando assim, tão cheia de certezas e determinação, parece que foi algo fácil e indolor. Mas a história não é tão cor de rosa quanto parece. Cada memória — cuidadosamente deletada — vinha recheada de sorrisos, de cumplicidade, de segredos trocados e olhares furtivos. Cada memória —cuidadosamente deletada — carregava um punhado de querer bem, de querer perto, de querer mais, de querer de novo. Cada memória — cuidadosamente deletada — trazia uma porção de sensações. E essas, meu caro, foram as mais difíceis de deletar.

Eu gostava das sensações.

Eu amava todas as sensações que vinham contigo. O sorriso no rosto quando ouvia teu nome; o frio na barriga quando via você; os tremores – primeiro de timidez, depois de timidez nenhuma; o arrepio... O arrepio que me dava quando você falava meu nome; o arrepio que subia na nuca quando você me beijava as costas; o arrepio que circulava no corpo inteiro quando teus dedos me desenhavam milimetricamente; o arrepio que sucumbia uma chuva de estrelas em lençóis amarrotados.

O arrepio de quando você me aninhava no colo e dizia que tudo ficaria bem. O arrepio quando você me contava da vida e rascunhava futuro para nós dois. O arrepio que carregava um sorriso, só por ter você ali, ao lado, dormindo.

Demorei nesses detalhes cheios de sentidos. Mordi os lábios. Toquei a pele. Respirei fundo. Bebi outro gole de vinho. Sacudi o calafrio para longe e tentei matar, cuidadosamente, cada arrepio. Acho que guardei alguns para mais tarde, escondidos no fundo de alguma gaveta que quase não remexo, numa tentativa fraca de me iludir fortemente, alegando a mim mesma que matei tudo de você que podia...

Até que cheguei na maior parte tua.

Eu a encarava do espelho. Outro gole de vinho que desceu gelado goela abaixo. Outro arrepio. A sensação era agridoce em meu peito e pele. Os minutos corriam soltos e eu não tirava os olhos da maior – e melhor – parte. Ela sorriu para mim e sustentei o riso.

Não matei essa parte. Pelo contrário, guardei com carinho. Há algo nos olhos dessa que merece ficar. Ela mudou desde a tua chegada, mudou ainda mais com a tua partida...

Eu me encarava o espelho, afoita. Sorria.

Eu matei você para mim – e renasci nesse dia.


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