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Lágrimas que precisamos derramar


Fechei os olhos devagar, mas ela escapou. Uma lágrima caiu e molhou o travesseiro. De novo. Se me lembro bem, prometi faz dois dias que não deixaria mais nada cair. Caiu. Eu cai também. Virei de bruços numa tentativa de abafar qualquer coisa. Caiu mais quente. Despencou mais rápido. Calou mais fundo. Cada uma era uma. Singular. Nenhuma soma.

A mesa do trabalho anda cheia de papéis, de números. A cabeça anda cheia de papéis, de números. Meu quarto anda cheio de papéis, de números. Uma centena ou várias delas. Já perdi a conta, mas meu coração ainda conta até um.

Acho que ele só sabe contar até você, nada além disso.

Você disse que isso era como uma ferida que alguém abria, colocava o dedo e revirava. Ferida que eu abri. Me desculpe. No fundo, o sangue que fica nos teus dedos quando cutuca, é meu então nem importa tanto assim. Sempre quis que alguém levasse um pouco de mim, nem que fosse até lavar as mãos e esquecer. 

Se está tudo bem? Tá sim.

Estou na melhor fase da vida. Tudo se encaminha. Quase tudo se encaminha. Quase tudo soma. Cem. Duzentos. Um.

Pensei em começar umas aulas de matemática para aprender a contar mais rápido. Calcular as probabilidades mais depressa e eliminar as possibilidades muito próximas de um. Tudo em vão. Não sou de exatas. Hoje eu sei. Só sei contar até um.

Uma lágrima é singular, ela pode somar com outras e aquecer meu travesseiro, mas não deixa de levar uma parte — e só uma. Um sentimento é singular, temos centenas deles, mas cada um é um. Não pode haver dois iguais. Cada noite é uma, e só ela.

Não pode haver duas iguais. Não pode haver afago de novo.

Foi um.
Ainda é um.

Você.

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