icones sociais

A caixinha


O dia amanheceu cinza, ainda não sabia se teria coragem de pegar o carro e voltar. Abri os olhos querendo que o telefone não tivesse tocado no dia anterior com aquela notícia. Eu nem me lembro como era a cidade. A despedida foi tão turbulenta que não deu tempo de memorizar e trazer coisas boas. Engraçado esse reencontro, não acha?! Me mandou embora com tanto desprezo e me pede para voltar. O que deu na sua cabeça?

A placa de boas-vindas continuava do mesmo jeito. Segui a rodovia e esse tempo frio deixa tudo mais sombrio, a gente passa pelas árvores sem folhas e fica imaginando como o ciclo da natureza é perfeito, e até me deixei levar a imaginação para o ciclo da vida, hora ou outra, tudo volta para nosso entendimento de alguma maneira. Eu me atrevi a acreditar que estar aqui novamente era mais uma fase dessa história que a gente vive escrevendo.

As folhas seguiam pelo chão e as nuvens tinham formas de algodão, as memórias insistiam em aparecer uma por uma, como se fosse um filme. Me lembrei de quando você me levava para procurar pássaros e me fazia observar as nuvens, me dizendo que eram os anjos procurando a melhor posição para descansarem. Acredita que ainda converso com eles quando me deparo com formas diferentes no céu? Acho que foi uma das poucas coisas boas que trouxe de você.

O dia cinza também pintou meu coração, eu não queria estar aqui, não me sentia a vontade para te olhar, mas a verdade é que eu reagi a suas ofensas e cresci, e você perdeu tudo isso. Vir te dizer adeus foi o ápice do meu sentimento de perdão comigo mesma, e acredito que o seu tenha sido me chamar para ver seu semblante pela última vez.

Parece que não deu tempo de me ver bem, será que foi isso que te fez arrepender?

Eu queria muito saber... O que te fez mudar de ideia? O que doeu aí dentro para me querer por perto? Bem sua cara se calar e me deixar sem respostas, mais uma vez! Eu vim, estou aqui, te encarei no caixão, sua mão gelada não parecia nada com o fervor que me bateu no último contato. Ao tocá-la parece que senti a dor do seu tapa em meu rosto. Era isso que queria me fazer sentir?

Você não sabe a bagunça de sentimentos que me deixou, a raiva, o ódio de toda aquela sua atitude externada em gritos e tapas. Te vendo tão quieto dentro daquela caixa me trouxe paz. Não me julgue! Por tempos eu carreguei um rancor de tudo isso, algo que ficava preso numa caixinha que eu fiz questão de manter intacta, uma caixinha que ficava separada de todas, que pesava, que me afastava daqui.

Eu nunca deixei ninguém tocar nela, e me refiz. Joguei todo concreto possível em cima dela e guardei por anos, até você aparecer novamente e desenterrá-la, numa simples ligação da mamãe dizendo que seu último pedido foi que eu viesse no seu enterro. Assim como o formato das nuvens, você me deixou imaginar o que era seu pedido. Porque não me ligou antes para falar olhando nos meus olhos o que sentia? Você não teria coragem de me pedir perdão não é? Era mais fácil me deixar pensando no que poderia ser esse pedido.

Não vou te dar mais o direito de me atormentar. Eu te perdoo! E juro que é de todo meu coração!

Não quero mais o peso dessa caixinha, estou deixando ela dentro do seu caixão para você levar, seja qual for o lugar que escolheu para ir, é sua, não me pertence mais. E vai em paz, não vou mais precisar me esconder, meus sentimentos também estão em paz. Acho que voltarei mais vezes aqui, quem sabe na primavera para ver as folhas verdes nas árvores?! É uma boa ideia, não acha?!!

Quem sabe um dia eu também ensine meus filhos que os anjos se deitam nas nuvens procurando colo, e elas tomam formas diferentes? Só que ao contrário de você, eu também serei colo para eles, qualquer que seja a situação.

Comentários

Instagram