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A primeira vez foi estranha


Foi estranho na primeira vez.

Estávamos numa daquelas rodas de conversa costumeiras de todo sábado. Alguém tocava violão; alguém cantava; alguém servia as cervejas. Sentávamos lado a lado, eu e ele, como sempre. Repousava minha cabeça no seu ombro, ele passava o braço pelas minhas costas e cantávamos Anna Júlia timidamente – gostávamos mais de ouvir do que de cantar.

Nos conhecemos há uns oito anos, no começo da faculdade. A gente sentava próximo e, numa aula de estatística aplicada, o professor juntou as mesas para um trabalho em dupla e acabei dividindo o trabalho – e a boa nota – com ele. Não serei hipócrita confessando que ficamos amigos logo de imediato, pois ele tinha uma arrogância que me incomodava. Era bom demais na matéria e gabava-se disso. Mas, sabe lá em que circunstâncias, acabamos ficando amigos.

Oito anos. Ele acompanhou todos os meus términos, eu o ajudei a escolher a aliança para a quase-noiva (longa história), saíamos entre amigos e entre casais. Nunca estivemos solteiros na mesma época – até que.

Uma roda de conversa, cerveja, música, violão.

Estávamos próximos – como sempre. Bebíamos do mesmo copo – como sempre. Dávamos o braço – como sempre. Mas, diferente de todas as outras tantas vezes, ele deitou a cabeça sobre a minha. Mas, diferente de todas as outras tantas vezes, seus dedos faziam carinho nas costas da minha mão direita, em semicírculos que arrepiavam. Mas, diferente de todas as outras tantas vezes, tinha uma tensão e uma energia que arrepiava os pelos. Os meus. Os dele.

Oito anos e a carona de volta para casa trouxe umas borboletas estranhas no estômago. Oito anos e ele desliga o carro quando para em frente à entrada do meu apartamento. Oito anos e, pela primeira vez, o silêncio que paira sobre nós e levemente constrangedor. Oito anos e, pela primeira vez, não sabemos como nos olhar, tampouco como disfarçar a reação das pupilas atentas e sedentas.

Oito anos e um beijo. E mais outro. E uma urgência na respiração, nas mãos, no toque. Oito anos e um pedido de desculpa; olhos arregalados e a pergunta gritando, silenciosa, em uníssono: ‘o que vai ser nós?’.

Foi bem estranho na primeira vez.

Foi um tanto estranho na segunda. Pouco menos na terceira. Natural na quarta e óbvio nas tantas outras; como se estivéssemos juntos desde sempre.

Oito anos.

E o ‘melhor amigo’ virou ‘melhor amor’.


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