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A verdade por trás do jogo de sedução


Eu não entendo minhas reações.

Quando reajo sem pensar, quando falo as coisas sem medir, quando percebo a forma como tudo foi dito, procuro sentar em frente ao espelho e avaliar. Viro terapeuta de mim mesma, conversando em voz alta como se, conseguindo me ouvir, conseguisse me entender.

Ontem não foi diferente.

Antes do banho, já enrolada numa toalha, fiquei encarando meus olhos castanhos no espelho do banheiro. Eles me encaravam de volta, entendendo tão pouco quanto eu. Cutuquei memórias, remoí histórias e nada causava o alvoroço de antigamente, nada trazia estrelas nos olhos, tampouco revirava as entranhas em desejos secretos. A reação era neutra, com um punhado de carinho esquecido. E só.

Então por que reagir daquela forma?

Cavoucando mais a fundo, encontrei cicatrizes mínimas que não sabia da existência. Talvez doessem de alguma forma estranha e diária, deixando-me acostumada a ponto de ignorar. Mas estavam ali. Finas cicatrizes num coração remendado. Demorei para reconhecer nossas iniciais naquelas linhas tão discretas.

Toquei e senti arder.

Queimava lento. Flashes de frases e histórias passavam rápido sobre minha retina roubando o pouco fôlego que eu tinha. Havia trancado a respiração sem me dar conta, me encarava arregalada e tinha um vinco no meio da testa, desenhando toda interrogação que envolvia. O sal queimou nos olhos, a visão ficou turva.

Não chorei.

De cabeça e ombros erguidos, relaxando toda a musculatura, peguei o celular nas mãos e anotei tudo que pensava. Pensamentos desconexos e soltos; trazendo pontas que sabia que teria – cedo ou tarde – que amarrar. Cada ponta que escrevia, entendia a reação, entendia as cicatrizes que – ciente da existência – latejavam sem parar.

Não foi fácil encarar.

As pontas estavam todas ali. Frases e fases de uma época onde era um pouco cega pela paixão que me consumia. A cicatriz doía e as memórias vieram ainda mais intensas, com detalhes que tinham passado despercebidos. Seria eu que não te enxergava; ou será você que tem mudado? Será que agora interpreto as coisas da maneira que devia; ou distorço as frases por mania?

Eu não entendo minhas reações.

Encarando-me diante do espelho, remexendo histórias antigas e sentindo o coração arder, procurei respostas para sentimentos que nem imaginava sentir. Para mágoas que achei que não existiam, mas que estavam todas ali. Para reticências que se prolongaram tempo demais; nos deixando sem um ponto final que nos devolveria para a vida antes do caos.

Tentei ignorar a intuição que gritava.

Fechei os olhos para mim mesma, tentando não ver o que meus olhos verdes – eles mudam de cor – gritavam sem parar. Senti o sal arder nos olhos, senti as cicatrizes queimarem e aumentarem; me rasgando inteira. Abri os olhos e a visão estava turva. Uma lágrima caiu, tímida, e escorreu pelo meu rosto e peito nu...

Teria sido eu massinha de modelar? Teria sido eu uma marionete nas mãos de quem só quis brincar? Foi tudo um jogo de ego?

A intuição gritava. O sal escorria – peito, umbigo, púbis.

E sem interrogação alguma, deixando a pele rasgar de vez, segurando todas as pontas soltas e amarrando em um nó emaranhado, falei baixo sem querer ouvir: eu fui manipulada — e essas eram as finas cicatrizes...

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