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Do quarto andar


O barulho do despertador chegou aos poucos em meus ouvidos. Eu tinha mesmo que levantar!? A impressão era de que eu havia acabado de encostar a cabeça no travesseiro, o cansaço era tanto que nem pude mensurar quanto tempo consegui desligar os pensamentos. Mesma rotina, mesmos clichês do dia a dia. Caneca de café na mão. Os seis comprimidos diários: ansiedade, pressão, estômago, enxaqueca, diabetes e uma bala de menta para aliviar tanta droga ingerida ao mesmo tempo.

O dia anterior tinha sido um caos no escritório, quanto papel para ler, aprovar, assinar. Ler, reprovar, rasgar. Hoje não seria diferente, o ontem ainda estava vagando dentro de mim como se fosse um fantasma incomodado com o ambiente. Acho que tomei duas doses do comprimido para ansiedade. Será!? Meu coração pulsava um pouco fora do normal, eu não devia ter pego aquela rua, eu sabia que não devia ter mudado a rota! Quando a mão quente do senhor agarrou meu braço, eu tive a sensação de que precisava de mais alguns comprimidos.

— Me ajude por favor! — ele gritava desesperado.

Eu só conseguia olhar e tremer, tremer e devolver um olhar mais calmo, pelo menos é o que eu me esforçava para fazer.

Ele se jogou do quarto andar, daquele prédio sujo, apagado no meio dos outros edifícios, quase não se podia notar — até aquele dia. O dia em que o seu Manuel quase consegue uma façanha. Foi tudo bem rápido, alguns curiosos comentavam. Ele chegou, cumprimentou a todos e seguiu pelas escadas, em poucos minutos lá estava eu atravessando a rua para pegar aquele lado da calçada e bumm! Me cai um homem do céu!

Acho que a pancada o deixou bem desnorteado, ele dizia coisa com coisa. E em meio a todo o caos produzido por minha mente eu me perguntei qual seria o motivo. Os olhos de seu Manuel penetravam os meus, e algo naquele olhar não me deixava acreditar que ele havia se jogado, sua mão quente segurando meu braço pedia socorro. O que ele queria matar!? Que dor insuportável era aquela que valia a pena negociar com a vida?!

Chamei a emergência, segurei firme sua mão, tentei respirar com mais tranquilidade, embora sem sucesso, e disse a ele que o socorro estava a caminho. Copiei em minha memória todas as informações possíveis sobre ele e fui embora, meio confusa. Voltei para casa, o atropelo de hoje foi muito maior. Trabalhei em casa, já no fim da tarde comecei meu ritual dos comprimidos e lembrei de seu Manuel, amanhã irei atrás dele pra saber se a dor ainda o incomodava.

O sexto comprimido de praxe era a balinha de menta. Que dia hoje! Que dia!

Continua...

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