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Pedrinhas no lago


Ela não tinha vindo para ficar. Não era nem de perto sua intenção. Estava só de passagem mesmo. Nunca se prendeu a nada nem a ninguém. Pelo menos não por muito tempo. Gostava de se retirar de cena no auge da festa, para que guardassem sempre a melhor lembrança dela, era mais ou menos isso que ela sempre dizia. Era inconstante demais para enraizar.

Se aproximou dele. Conversaram. Dividiram um hot dog prensado. E depois mais um. Aí já era tarde, ela ficou para dormir na casa dele. O dia seguinte era sábado, ela acabou ficando, passou o final de semana lá, e foi permanecendo por ali. Quando deu por si, já existia um enredo entre eles. Mas, ainda assim, ela não pretendia manter-se ali muito mais. Não muito. Não por muito tempo, pelo menos. Ela era mais movimento que permanência.

Era nítido que ele se apaixonou de imediato. Estava escrito na cara dele. Estampado em sua retina. Tatuado em sua pele. Mesmo tentando disfarçar, quem os via juntos, sacava na hora que ele estava de quatro por ela. Ela ainda não. Era mais cuidadosa. Cautelosa. Com ela demorou um pouco mais para acontecer. E, além do mais, não estava em seus planos perdurar em um só lugar por muito tempo. Gostava demais da diversidade de paisagens para fixar seus olhos eternamente a um mesmo horizonte.

Viveram intensamente enquanto aquela história durou. De verdade. Andavam de mãos dadas o tempo todo. Se olhavam nos olhos. Se curtiam. Correram juntos os quatro cantos. Enquanto ela esteve ali, esteve inteira. Entregue. De fato.

Mas, como previsto, a data dela partir chegou. E ele sofreu. E ela também, como não. Mesmo que você saiba que seu roteiro tem passagem de volta já comprada, com dia e hora carimbados, não quer dizer que você não estivesse adorando partes daquela viagem.

A despedida não foi leve.

Ele desaguou em lágrimas e disse a ela, parafraseando “O Pequeno Príncipe”, que quando a gente entra na vida de alguém, nos tornamos um pouco, ou um tantão, responsáveis por aquilo que cativamos. Que somos causa e efeito sempre. Causa e consequência contínua.

Que somos lago de águas calmas e a pessoa que entra em nossa vida é a pedrinha que é jogada na superfície quando ele está com a água parada. A perturbação na água causada pelo impacto da pedra, causará um movimento de ondas em forma de circunferências. Aquilo é vida acontecendo.

Movimento provocado pela pedra. Ondas de energia e vitalidade. Coração pulsando. Aquele lago não será mais o mesmo, nunca mais. E nem a pedra... ela também terá sido molhada, pelo atrito com a água da superfície. E, embora separados, um dia já estiveram juntos, marcados e alterados um pelo outro... Para ela isso era o mais importante: o significado das coisas e não a duração.

E assim a vida segue...

Um dia somos lago, no outro somos pedra... Importante é seguirmos o curso, o fluxo que o movimento das águas promove. Enquanto isso acontecer, significa que estamos vivos, e, por isso, prontos para molhar ou sermos molhados de novo, e de novo, e quantas vezes mais forem necessárias, encharcando, assim, nossa existência e passagem por aqui de significado, contexto e conteúdo.


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