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Viagem de trem


Ia ser uma longa jornada para ela. Ir tão longe assim, e ainda de trem...

Mas essa foi a condição que ela mesma se impôs. Exatamente porque precisava de tempo. Tempo para pensar. Para respirar. Para colocar os pensamentos em ordem. Ou colocar ainda mais desordem neles.

Na mala, apesar de ter tentado ser o mais concisa possível e não levar muita bagagem, só levando o essencial e aquilo que tinha mesmo que ser carregado, quando deu por si, já estava levando coisa demais. De novo. Como sempre fez a vida inteira. Teve que rever aquela mala algumas dezenas de vezes, retirando extras, itens desnecessários, peças que ficariam ociosas, artigos fúteis, antes de realmente fechar a bagagem e partir para a estação.

Vicky era uma mulher incrível, apesar dela mesma não saber disso ainda. Estatura média, corpo esguio, cabelos escorridos e castanhos, olhos marcantes. Quando se permitia sorrir, seu sorriso encantava quem estava por perto. A beleza dela era muito sutil e delicada. Não era dessas mulheres que chamam a atenção por onde passam. Só nota tal beleza que brota dela quem está muito atento. E quem a vê de perto. Porque a beleza dela vem de dentro também.

Escolheu um lugar na janela. Queria olhar as paisagens em volta. Queria ver tudo ao seu redor. Enxergar os detalhes. Observar as minúcias. Ver cada particularidade. Admirar os pormenores. Da viagem. Do caminho. E da vida. Principalmente da vida. Queria ver as nuances do dia, do entardecer e da noite.

De preferência, não queria ninguém sentado ao seu lado. Queria viajar sozinha. Como há muito não acontecia. Ela sempre esteve acompanhada, a vida toda. Já era hora de estar só. Usufruir dos benefícios da solidão. Precisava estar acompanhada de si mesma.

Queria não se preocupar com o destino, só com o caminho, com a jornada. Com a jornada de trem, mas, principalmente, a jornada para dentro de si mesma.

Por sorte — ou azar, vai saber — talvez conseguisse se reencontrar neste longo trajeto. Dar de cara com si mesma em alguma parada daquela viagem. Esbarrar em quem é de verdade. Tropeçar nela mesma seria o ápice. Aí poderiam conversar e entender porque tantas versões diferentes ocuparam o papel que era dela de direito. Tantas variantes da mesma pessoa. Umas boas, outras nem tanto. Será que alguma realmente a representava em sua essência?

No percurso da locomotiva, entre um cochilo e outro, alguns sonhos ou devaneios lhe vieram à mente. Numa cafeteria, em uma vila bucólica muito charmosa, ambiente rústico e acolhedor, com cheiro de madeira, Vicky estava sentada numa das mesinhas do lado de fora. A mesa era coberta com uma toalha de tecido com estampa de flores. Deviam ser margaridas. Sim, margaridas, provavelmente.

O garçom foi atendê-la, mas ela preferiu não pedir nada naquele momento:
— Obrigada, mas prefiro esperar um pouco mais. Estou esperando algumas outras amigas. Faço o pedido assim que todas tiverem chegado.

Seria uma ocasião especial. Nunca antes todas elas estiveram reunidas juntas. Até então, quando uma entrava em cena, a outra tinha que sair. Não podiam coexistir. Não eram capazes de estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Uma anulava a presença da outra. Uma no palco principal, as demais nos bastidores. Foi assim por muitos anos.

Não era bem pelas amigas que Vicky esperava de fato e sim as muitas versões dela mesma. A Vicky mãe, a Vicky esposa, a Vicky administradora de empresas, a Vicky filha, a Vicky mulher, a Vicky forte, a Vicky frágil...

Como um acontecimento épico, lá estavam todas as Vickies. Sentadas ao redor da mesma mesa. Naquela simpática cafeteria em algum lugar ao redor do mundo. Coexistindo. Conversando. Dialogando. Discutindo. Fato histórico. Muita roupa suja para lavar. Muitos pingos para serem colocados em milhares de “is”. Muitas conclusões e definições diante delas.

O garçom desta vez teve dificuldade de ser notado, porque elas estavam muito entretidas, as conversas acaloradas fluíam em alto e bom tom, mas finalmente conseguiu que uma delas dissesse:
— Champanhe, por favor! Da melhor qualidade! Traga muitas taças! Vamos todas brindar juntas! Temos muito a comemorar!

E, acordando daquele sonho, devaneio ou realidade paralela, Vicky se viu sentada na poltrona do trem novamente. Pôr-do-sol do lado de fora da janela transparente da máquina a vapor...

Deixou-se admirar aquela paisagem incrível. Nem se recordava mais há quanto tempo não parava para apreciar uma obra-prima da natureza. Mesmo que essa, às vezes, aparecesse escancarada diante de suas pupilas.

Mas agora era diferente. Depois do encontro com as outras elas, lá na cafeteria, regado a champanhe, ela descobriu que não precisava escolher qual a melhor versão de si mesma iria adotar para o resto de sua vida. Ela definitivamente não tinha melhores versões. Nem piores. Eram somente diferentes e variadas versões.

E agora que elas todas sabiam coexistir dentro da mesma pessoa, tudo seria mais leve. Mais fácil. Mais prazeroso.

Agora, ela poderia seguir a viagem de trem até o destino final.

Já poderia permitir até que alguém sentasse na poltrona a seu lado. E também iria aproveitar a próxima parada para fazer umas comprinhas. Achou que talvez a bagagem estivesse vazia demais. Possivelmente já caberia na mala alguns extras e supérfluos novamente... Algum xale amarelo ou casaco lilás que ela, provavelmente, nunca irá vestir!

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