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A vida tem dessas coisas


A gente tem se falado.

Não com a mesma frequência que a gente se falava, mas com mais frequência do que andávamos nos falando, sabe como? Houve uma época onde o silêncio era muito e mútuo, onde a ausência primeiro era muito sentida, depois passou a ser pouco notada. Acho que fui me acostumando com a tua falta, fui me acostumando com os teus silêncios e fui dando outros nomes para as saudades que ficaram, até que a saudade deixou de ser e passou a ser qualquer outra coisa. Às vezes era ranço, outras era carinho. Às vezes vinha um querer bem e uma vontade louca de saber como vai você (eu preciso saber, da sua vida), outras vezes não vinha nada. Eu cavoucava o coração e não te encontrava, ou, se te encontrava, não te via mais na varanda de frente ao mar.

Confesso que tinha me acostumado com nossa quietude e a incrível capacidade de seguir adiante, como se nada tivesse sido. Eu achei que tinha me acostumado, essa que é a verdade. A vida tem disso, não é? Vai nos empurrando nessa rotina louca e a gente vai escondendo o sentir... Mas aí você veio e puxou um papo. E conseguimos conversar amenidades sem qualquer pedra na mão, e eu me vi inundada de lembranças de um passado não-tão-remoto. Foram alguns minutos de conversa, quase hora. E tão... tranquilo, sabe? Percebi que sentia falta desses momentos, que ainda gostava das nossas trocas... Senti que poderia ficar tudo bem, no fim das contas.

Mas não fica. Nunca fica.

Do mesmo jeito que o papo vem — sempre com algum interesse — logo o papo se esvai. Encerra-se no meio de um diálogo, no meio de uma frase. Tudo fica pela metade e quase sempre sou eu quem fico sem respostas. No começo incomodava um bom bocado, mas depois eu me acostumei com o processo:

você com oi > vai pedir alguma coisa > falará amenidades > 
tentarei prolongar o papo > vai sumir. 

É cíclico e repetitivo, então não precisei de muito tempo para me acostumar. Ainda assim, incomoda. E eu não queria que incomodasse.

Normalmente eu lido bem. Dou de ombros, literalmente. A vida continua seguindo e sugando, então não me demoro nesses detalhes, sabe? Mas tem dias que já começam ruins e errados; e aí vem você com o teu papo cheio de meias palavras... Não consigo deixar por menos, entende? Sinto as costas formigarem de estresse, sinto a boca cheia de palavras que estão loucas, desvairadas, alucinadas para serem postas para fora.

Paro. Pondero. Penso.

Não vale a pena, vale? Nunca valeu, acredito. Sei lá, eu sempre fiquei com as interrogações. Antes, durante, depois. Nunca tive certeza de nada quando se tratou de nós dois...

Lembro bem o dia que você disse com todas as palavrinhas — carregadas de doçura — que nada mudaria. Fui tola em acreditar? Ou fomos fadados ao acaso, à vida que dita as regras, ao sentimento que se descontrola? Nada muda, apesar de tudo ter mudado: sigo com as interrogações de sempre, e a ausência de respostas – como sempre.

A gente tem se falado.

Alguns dias, como hoje, eu preferiria que a gente nunca tivesse voltado. N’outros, que a gente sequer tivesse tentado, embora saiba que algumas certezas só surgem depois do sentir exagerado. Vez em quando rezo baixinho para tudo voltar a ser como era, antes de enroscarmos os nós, apertamos laços, abraços e pernas. Eu gostava da forma como éramos cúmplices, da forma como compartilhávamos a vida, os filmes e coisas corriqueiras... Nos tornamos dois estranhos, com a incrível capacidade de seguir adiante, como se nada tivesse sido.

Eu achei que tinha me acostumado, essa que é a verdade. Mas a gente tem se falado.

A vida tem disso, não é?

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