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O cúmulo da sacanagem


Faz quarenta minutos que estou sentada encarando meu reflexo na tela do notebook, ouvindo uma playlist no spotify — daquelas bem deprimentes —, enquanto tento iniciar o bendito texto. Esse é um daqueles textos que ninguém sonha em escrever um dia, sequer sei como devo começá-lo. Beber mais um gole de café e começar do início, talvez seja uma boa estratégia.

Pois bem, era um domingo como outro qualquer, e eu acordei feliz — muito, juro!  — apesar do calor infernal, típico do verão carioca. Despertei bem disposta a saçaricar minha beleza por aí, dando uma de Pugliesi pelas ruas da cidade maravilhosa, mas acabei permanecendo no pijama para ver um filme no sofá de casa mesmo.

Dado momento, não sei porque cargas d’água eu fiquei com uma vontade sobrenatural de ir a um determinado lugar no final do dia, talvez fosse o universo ou Deus em ação por algum motivo. Sei que me arrumei — e ainda bem, pois só ando largada por aí —  e tentei convencer alguém a sair comigo. Não tive êxito algum e, assim como o cão arrependido do Chespirito, fui com minhas orelhas baixas e o rabinho entre as pernas em direção ao elevador.

Dei uma olhada no espelho pra ajeitar a juba indomável e pronto. Linda!

Entrei no elevador, tão feliz — pobrezinha, mal sabia — que levei alguns instantes, entre responder mensagens no celular e me ajeitar no espelho (me julguem, mas que mulher resiste a um espelho?) para notar que o elevador estava parado comigo dentro. Sim! Você leu parado, enguiçado, quebrado, COMIGO.  Dentro dele.

Reagi como qualquer pessoa normal que fica presa dentro de um elevador a 15 andares do térreo: “Socorrooo, alguém me salva, eu vou morrer aqui!!!” gritei enquanto apertava todos os botões dos andares, as campainhas de alarme, o número da minha mãe no celular e respondia ao porteiro que me atendeu no interfone. Foram os piores 5 minutos da minha vida – não ria de mim.


Finalmente liberta, voltei em casa pra beber uma água e me acalmar um pouco antes de tentar, outra vez, cumprir com meu objetivo da noite. Por pena, meu irmão resolveu me acompanhar e eu agradeci por isso, não aguentaria o medo de ficar trancada sozinha outra vez no elevador. Fomos. Ainda estava claro, calor escaldante e, em apenas duas passadas, eu já estava pingando. Só que a alegria de estar conseguindo rumar ao meu destino ofuscava tudo isso — antes eu tivesse desistido com o elevador defeituoso.

Já na metade do caminho eis que vi uma aparição, torcendo para que não fosse quem eu estava pensando ser, me aproximei observando, va-ga-ro-sa-men-te. O fato de eu sempre esquecer os óculos pesa muito nessas horas... E, sim, era quem eu estava pensando: meu ex. Brrrrrrr. Outro balde de água fria – poxa, eu tinha começado bem o dia…

Era ele, ali, parado, esperando alguém e, como boa mulher que sou, meu radar instintivo, meu querido sexto sentido, na hora gritou “ele com alguém!!!” e no ato meus olhinhos encontraram a guria que chegava ao encontro dele. Sobre esse momento da minha vida não sei muito bem o que dizer.

Talvez o normal fosse eu achar um buraco pra me enfiar, sair correndo, começar a chorar, fingir que não vi, passar indiferentemente ou algo do gênero, mas eu não sou nada normal. Minha reação automática foi — pasmem! — abraçar a menina. Dar-lhe uns beijos carinhosos nas bochechas e me apresentar, sorrindo loucamente, como o ser exageradamente simpático que sou – o outro lá eu só cumprimentei e pronto, já tá mais que bom.

Troquei duas palavrinhas com ele, meu irmão os cumprimentou e eu logo o puxei pelas orelhas como quem ia tirar o pai da forca pra seguirmos nosso cominho. Não, eu não ia desistir de chegar ao meu destino — que, para minha decepção, era o mesmo que o deles — tampouco pretendia me demorar mais que dois milésimos de segundo ali.

Você deve estar pensando que fiquei atordoada pela aparição do dito cujo. A verdade é que não.

Eu gosto dele, o quero bem e ponto. Isso, nós mulheres fortes, até encaramos de boa. O que está engasgado até agora na minha goela, que não me deixa pensar em nada, nem sequer me deixa escrever direito. Que tem tirado minhas noites de sono. Aquilo que não sai da minha cabeça há dias, que feriu meu orgulho em níveis estratosféricos e lançou minha autoestima no buraco mais profundo que possa existir nesse planeta é: a finura da cintura da bendita.

Sim! De pilão! Pra que isso, gente?!

Não tem necessidade. Nunca imaginei passar por algo assim, agora eu estou aqui, atormentada, procurando as academias mais próximas pra voltar ontem a malhar, calculando o tempo que vou demorar e o que vou ter que deixar de comer pra ter uma cinturinha tipo essa, que sequer ouso sonhar em ter igual e, de quebra, tendo altas crises de ansiedade, comendo brigadeiro como se fosse água, só conseguindo pensar na cinturinha fina da serumana.

Poxa, a existência do ex a gente até aguenta, mas atual fit de ex é muita sacanagem… Por favor, me dá uma lipo, Senhor, (quase) nunca te peço nada.

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