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Uma carta incomum


Oi.

Nunca sei bem como falar contigo, mas aí vai.

Faz uns dias que venho te encarando, tentando me reconhecer, ensaiando as palavras certas. Não escrevo. Não digo. Não faço nada além de existir em você. Penso que deveríamos ser um só, de acordo com todos os clichês já escritos que levam meu nome, mas por ironia do destino ou por infelicidade da vida, há tempos não somos mais. Há tempos que estamos caminhando em ritmos e sentidos completamente distintos, ainda que paralelos. Há tempos eu te vejo, mas não te conheço. Há tempos que te escuto falar, mas não te ouço. Há tempos que te toco, mas já não te sinto mais.

É isso, acho que deixei de sentir.
Amor, admiração, carinho, desejo... Não sei escolher um só, mas sei que falta um tanto de cada. Já não sei mais qual a sua cor preferida ou se você gosta de verão mais do que de inverno. Não sei com o que você gosta de trabalhar ou que tipo de música mais gosta de ouvir. Não sei se você ainda quer mesmo ter filhos ou se mudou de ideia e não teve coragem de me dizer ainda. Percebe? Em algum momento da nossa vida, que digamos de passagem nem é tão curta assim, nós nos distanciamos tanto a ponto de eu não saber onde foi que a gente se desencontrou.

Antes eu não tinha uma lembrança sequer que não incluísse você. Eu não sabia ser, sem você. E aí, no minuto seguinte, nos surpreendemos. Você me obrigou a fazer coisas absurdas, ouvi de você coisas ainda piores. Nos machucamos. Nos ofendemos. Nos ferimos com todos os meus cacos que você quebrou. Nos repelimos de todas as formas possíveis e fingimos — falo por mim, ao menos — que nada tinha acontecido. Continuamos seguindo com os planos, ignorando todos os danos causados pelo desencontro de objetivos, de ideias, de esperas e de valores. Esses últimos eu achei que não fossem mutáveis, mas descobri há pouco que eles são e os nossos não coincidem mais, já tem um tempo.

Tempo...

Disseram que precisamos tirar um só nosso, talvez para nos reconectarmos, nos reencontrarmos. Tentei, juro. Talvez por isso eu esteja te escrevendo agora. Talvez por ter tentado de todas as formas que imaginei e não ter conseguido encontrar uma solução para o que acontece entre a gente. Talvez eu nunca me recupere dessa separação. Talvez nunca sejamos inteiros novamente, mas eu vou continuar tentando.

Porque, no fim de tudo, eu sei que somos incríveis quando estamos em sintonia e vamos passar por mais esta fase. Você só precisa confiar em mim. Você só precisa confiar em você.

Ass: eu, o espelho que te vê todos os dias, mesmo quando você não me olha.


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