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Achei que tinha superado



Juro que achei que estivesse em paz. Que tinha superado. Que minha vida tinha voltado para a ordem normal de antes, cada coisa em seu devido lugar. Os dias vinham e iam, seguindo uma naturalidade até gostosa, vez ou outra. Tudo seguia como manda o figurino...

Até que aquela maldita música tocou...sim, a nossa música, que achei que ninguém mais conhecesse, tão antiga já, tão fora do circuito musical há tanto tempo... tão nossa... Só nossa...
Certas coisas não mudam nunca, cê sabe, meu bem. Continuo amando dirigir sozinha na estrada, ouvindo músicas bem alto, às vezes ainda abro os vidros para sentir o vento. Continua sendo dos meus momentos preferidos, eu comigo mesma...

E, naquele dia, aconteceu... Lá estava eu, quando a música veio... E, junto dela, tanta coisa. Tudo o que eu achei estar literalmente cimentado, bem guardado num pote de memórias e recordações que eu só tiraria de lá quando quisesse (e, se dependesse de mim, seria nunquinha). Tudo o que achei estar bem resolvido aqui dentro, tudo que venho trabalhando tanto para acalmar, abrandar... Veio tudo à tona de novo, você entrou naquele carro junto com a maldita música. Sem pedir licença, exatamente como fez quando entrou, ou melhor, invadiu minha vida.



E eu senti cada milímetro de tudo. ali dentro daquele carro: gargalhei lembrando das histórias engraçadas que você sabia contar como ninguém; fiquei nostálgica lembrando do gosto do seu abraço demorado; entristeci lembrando das vezes que você pisou na bola comigo — e foram muitas, aliás — e chorei, chorei muito mesmo, até perder o fôlego, quando lembrei, de novo, e mais uma vez, que você não estava mais ali...

Assim que música parou de tocar e aquele universo paralelo terminou de ser encenado. Tive que parar o carro no acostamento, me recuperar do baque que sua visita surpresa me causou. E lidar com emoções e sentimentos que eu não sabia mais carregar. Eram demasiadamente pesadas e desajeitadas. Não cabiam ali dentro, era sufocante.

Nem sei quanto tempo ainda fiquei ali parada, até pegar de novo a estrada e seguir até onde eu estava indo antes da sua invasão. Segui caminho, segui meus dias, segui minha vida, sem ti... É, certas coisas nunca vão mudar, como o fato de você só ter estado em minha vida de passagem. Uma passagem rápida demais, ou talvez não... Quem sabe tenha durado o suficiente para o que tinha que ser, seja lá o que isso signifique, ainda estou tentando compreender.

Certas coisas não mudaram, e o fato de você não estar aqui e agora é uma delas. 

Certas coisas nunca mudarão, como a nossa música, que continuará sendo a mesma eternamente. Só espero não escutá-la tão cedo, porque o estrago que ela fez a última vez que passou por aqui foi grandioso. Ainda estou me recuperando do choque, espantando fantasmas conhecidos e recolhendo os cacos que ela espatifou ao passar por aqui em alto volume.

Certas coisas não mudarão nunca. Mas, uma, em especial, eu gostaria que mudasse: que ninguém mais, além de mim mesma, tivesse o poder de destrancar meu pote de memórias ou de abrir minha caixinha de música...


ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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