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Azar o seu


Sabe, chega de me penalizar, sofrer, chorar. A vida segue, a fila anda! Você decidiu não ficar. Você fez suas escolhas, tomou suas decisões. Bem duvidosas, aliás, mas estão feitas. É fato consumado.
Fazendo um balanço aqui (e me dando uma valorizada extra também, por que não?), acho que você foi quem mais perdeu, sabia?

Sou tantas em uma só...E você conheceu tão pouco de mim. Ainda tinha tanto por vir, tanto para ser revelado, pouco a pouco, tanto por mostrar...
Ah, quantas facetas minhas tu abriste mão de desvendar quando tomou a decisão de ir embora... Tenho versões escondidas e camufladas que são bem interessantes, viu?

Sabe, tem tantas coisas acontecendo desde que partiu... Não, o mundo não gira em torno de você, meu bem, então ele não parou com sua ausência por aqui. Tá, tudo bem, confesso que vez ou outra sinto sim sua falta, em certas ocasiões é inevitável não pensar em ti, mas, ainda assim, andamos pra frente, né?

A vida sempre segue, acho que foi isso que eu te disse naquele dia, não foi?

Faltou você assistir à apresentação da minha nova coreografia... Sim, o meu lado bailarina você até ouviu falar, mas não vivenciou de pertinho. Voltei a dançar e o espetáculo está lindo! O figurino ia te deixar de queixo caído, babando.

Faltou você ler a versão final do meu livro. Sim, ele está praticamente pronto agora, e você só leu a epígrafe. Foi o primeiro a ler o começo, a semente deste projeto, e não verá a obra final até estar nas livrarias. A história do livro deu tantas reviravoltas... Acho que você iria adorar e até se identificar com algumas cenas ali, não tive como não me inspirar em ti para criar algumas delas.

Você também não estava nas últimas festas e comemorações... Lembra que combinamos com nossos amigos de ir? Então, eu fui com eles, mesmo sem ti, e a gente se divertiu tanto... Dançamos a noite toda, as músicas da “nossa época”. Sim, algumas, inevitavelmente, me remeteram a você, mas eu dancei assim mesmo, celebrando algo bom que aconteceu mas que decidiu ir, por livre e espontânea vontade. E viva a liberdade!

Ah, houve algumas viagens também... Lembra que da nossa lista de lugares para conhecermos juntos ficaram alguns pendentes? Pois é...eu segui viagem. Fui a cada um deles, mesmo sem você, porque a vida sempre segue, de um jeito ou de outro. Confesso que alguns daqueles lugares te tirariam do chão, sabe... Te deixariam extasiado diante de tamanha beleza.

Me mudei também. Acho que você adoraria a casa nova. Tem um quintal enorme e uma garagem que caberia aquela parafernália de ferramentas que você tem. Ah, mas esqueci, você não mora mais comigo, então posso fazer o que eu quiser com esta garagem sobressalente aqui...

Não mudei só de casa... Mudei o corte e a cor dos cabelos, mudei de emprego, tenho novos amigos também. Mudei por dentro, aprendi na dor. Você me disse que a opção de ir embora não deveria ser usada como termômetro para medir seu bem querer por mim... Demorei a entender aquilo, sabe? Porque pra mim quem gosta quer estar perto, ficar junto... Mas acho que agora, depois de tanto tempo, compreendo. Tenho quase certeza do seu bem querer por mim, o que me faz crer que nem sempre gostar implica em compartilhar a vida... Às vezes, só às vezes, como no nosso caso, amar à distância causa menos danos.

E, encerro por aqui, parafraseando a ti mesmo: "não meça meu bem querer por ti pelo que vou dizer a seguir, mas, o azar foi todo seu"...


ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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