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“Carpe diem” ou algo assim


O sol já se pôs há muito tempo. Lá fora, o silêncio impera. As pessoas estão dormindo em suas camas, os animais silenciam, descansam, se recolhem em si. Aqui dentro, ainda há barulho. É a cabeça que gira sem parar, o coração que aperta, as palavras que buscam uma forma de sair. É o peito que urge, e as ansiedades que brigam para ver quem vai ganhar.
É, o tempo passa e a vida continua.

Cortes viram cicatrizes, amores viram dores, que viram lembranças. Momentos viram histórias e, tão logo percebemos, estamos vivendo um novo momento que amanhã, já será ontem

Reza a lenda que um rei pediu para um sábio de seu reino escrever em sua coroa uma frase que o deixasse feliz e triste ao mesmo tempo. Após muito pensar, eis a frase escolhida pelo sábio: “tudo passa”. De fato, tudo de ruim passa, assim como tudo de bom. Nossa vida é uma constante de momentos que se vão. Que passam, sejam eles bons ou ruins. 

Por isso aquela máxima do viver hoje, “carpe diem”, aproveite o momento. Por isso “A Sociedade dos Poetas Mortos” é tão essencial. Neste lindo filme em que Robin Williams interpreta o professor que incita seus alunos de um colégio interno bastante formal a quebrar barreiras e a viver o agora. Intensamente. Apaixonadamente. A arte, a poesia, o amor.


Se tudo o que temos é o hoje, vamos viver o agora. Claro, fácil falar. Difícil colocar em prática. Colocar nossas expectativas, frustrações, ansiedades e desejos de lado e viver o momento. 

Difícil é apenas ser em um mundo que insiste que precisamos planejar, nos preparar, que as coisas boas não acontecem do dia para noite, que é preciso muito sacrifício, suor e lágrimas.

Então internalizamos essa entidade batalhadora-sofredora e nos dedicamos. Passamos anos a fio em busca daquilo que tanto almejamos, até que um dia — e esse dia sempre chega — percebemos que aquilo que tanto queríamos não faz mais sentido.

Percebemos que crescemos, evoluímos ou que simplesmente não queremos mais. E então, o desespero. O choque da realidade com a expectativa, dos anos de dedicação com o “não quero mais, e agora?”.

Travamos. Eu, pelo menos, reflito, penso, penso e nada acontece. Travo. Mas o mundo continua a girar. E gira tanto e tão rápido que perco o equilíbrio e caio. Permaneço no chão, às vezes demoro a levantar.



Como no filme dos poetas mortos, nem todos aguentam o giro. Nem todos aguentam encarar a realidade, se encarar, e permanecem no chão, às vezes permanentemente. Porém, como “tudo passa”, e sempre passa, uma hora levantamos, começamos a andar e quando nos damos conta, estamos correndo novamente.

Em direção a que?

A novos sonhos, a novas possibilidades. Em direção ao futuro. Sem controle, sem planejamento, apenas vivendo, fazendo o melhor agora e torcendo para que tenhamos sabedoria e coragem quando esse melhor não mais se mostrar suficiente, e formos chamados a viver em outro lugar.

De outro jeito.

Até que um dia o tempo acabe, e que nesse dia, possamos ter a certeza de ter vivido.


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