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Depois do fim


Aquele seria um encontro decisivo e definitivo. Talvez por isso tentaram adiá-lo até quando foi possível, empurrando com a barriga, deixando para depois, procrastinando na cara dura e preferindo esconder a poeira para debaixo do tapete, exatamente para não ter que encarar aquele exato momento.

Sentados frente a frente, quanta estranheza para quem já fora tão íntimo. Como achar o jeito certo e as palavras apropriadas para tocar em pontos e temas tão profundos e delicados?

Ele ali, listando dezenas de razões para que ela permanecesse, não fosse embora, não desistisse deles. Exemplificou com tudo o que deu certo na história dos dois, como eles funcionaram bem juntos em tantas coisas durante um bocado de tempo.

Ela, por outro lado, apontando todos os motivos para não prolongarem mais algo que parecia ter parado de funcionar já há bastante tempo... Muitas brigas e desentendimentos por nada... Tudo meio no automático e sem propósito, sem vida nem cor...
Ela dizendo não ter gostado das cenas de ciúme. Ele explicando que aquilo havia sido há tanto tempo, lá trás, quando ainda era imaturo, inseguro, e era seu jeito torto de demonstrar que a queria tanto, de um jeito que nunca imaginou querer alguém, mas não sabia como demonstrar, então, como coisa de moleque, trocava os pés pelas mãos.

Ela falou que abominava seu silêncio. Ele retrucou dizendo que o silêncio era o respeito dele diante dos momentos dela. Que aquela falta de diálogo, às vezes, era ele não querendo se intrometer naquelas horas em que ela mais precisava ser companhia dela mesma...

Ela reclamou que sentia falta de ter mais autonomia. Ele explicou, carinhosamente, que tudo o que fazia por ela era zelo, cuidado, amor e dedicação. Que jamais a julgou incapaz de fazer por si mesma... Era só ele querendo fazer mais por quem fazia tanto por ele e ele, de novo, sem muito jeito com as coisas, pecando pelo excesso... Excesso de cuidado...



Ela menciona o distanciamento absurdo criado entre eles, um abismo que ela julgava nunca mais poder ser transposto. Ele diz que ela havia lhe rejeitado algumas vezes, então ele preferiu não avançar nenhum sinal, não fazer mais nenhuma tentativa em vão, e estava novamente a respeitando, aguardando o momento em que ela daria um singelo sinal para ele, então, poder retornar aos poucos.

Seria mesmo um momento conclusivo. Ali, ela o fita, olhos marejados e, finalmente, entende: como pensar em fim se ela acabara de ver a si mesma refletida de corpo inteiro e alma despida na retina dele, estampada em sua íris... Ela era ali, na pupila dele... Se reconhecendo e se enxergando no jeito dele de ver a vida. Eram o espelho um do outro.

Talvez nem todo fim seja sinônimo de término... Alguns finais podem significar lindos recomeços... Às vezes há sim algo de belo depois do fim... Um novo princípio... Uma segunda chance que eles decidiram agarrar juntos ali mesmo, traçar uma nova história e fazer valer a pena... Um brinde aos finais que trazem consigo o advento de novas possibilidades.

"Aquilo que eu sinto por você
Parece ser maior
Que o destino que me passa e te passa
E há de ser um só
A gente é diferente quando sente
Mas pode ser que mesmo assim
A gente até se ajeite"
Skank - Algo parecido

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