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E se você soubesse quando vai morrer?


A morte é um troço estranho, né? Tanto se diz sobre ela, mas nada sabemos de verdade. Sabemos que cedo ou tarde a encontramos, seja como imaginávamos ou de uma forma completamente diferente, seja por desejo próprio ou por imposição do destino, mas sempre sem aviso prévio. Mesmo quando ela é buscada, o exato segundo em que chegará ainda é um mistério. Mesmo que existam situações em que pensamos "já dava pra sentir que estava se despedindo, já não tinha mais forças", sempre há uma pitada de esperança. Sempre acreditamos que no instante seguinte um milagre tornará nosso sonho real — e às vezes ele chega sim —, mas geralmente ela não respeita expectativas.

A morte não quer saber se você não postou a foto incrível que tirou hoje cedo, se esqueceu a toalha molhada na cama ou se o cachorro não passeou. Se você tem que enviar um e-mail para aquele cliente chato amanhã cedo pouco importa. Ela não te pergunta se você precisa dizer adeus a alguém, se tinha contas para pagar, se o salário caiu, se queria rever a amiga da escola ou se já havia se preparado para partir. Ela não difere quem a chama de quem tenta lhe bater a porta na cara, porque sempre dá um jeito de entrar.

A morte não muda a postura por lidar com poetas ou políticos, ricos ou pobres, brancos ou pretos, doentes ou sãos. Ela é direta e objetiva, ainda que possa chegar devagarinho. Não interessa se você tem alguém te esperando em casa, se esqueceu a caneta preferida no estojo da melhor amiga, se estava brigado com o seu amor ou se não lembrou de dar bom dia ao porteiro. Você pode ter a câmera mais poderosa já lançada ou o melhor plano de internet. Pode beijar homens ou preferir mulheres. Se marcou um date amanhã a noite ou se comprou um vinho pra saborear sua própria companhia não vai fazer a menor diferença. A morte não se compadece.

Quando é chegada sua hora — seja por Deus, destino, karma ou o nome que quiser dar —, não existe soneca de 5 ou 10 minutos. Não adianta fingir que está dormindo ou deixar as janelas fechadas. Pode acelerar o carro o tanto que quiser, pode correr, se esconder, mas não há fuga possível. Ela está sempre um passo à frente, sempre pronta para qualquer tipo de reação. Então se você ou alguém passou por ela ileso, não se engane. Era para ser assim. A morte não erra.

Ela é a rainha dos clichês, já reparou? Todos os dias, em todas as suas visitas — noticiadas ou não — ela tenta nos fazer entender que não importa como, quando ou onde você chegou ou sairá deste mundo, deste período de existência que chamamos de vida, mas sim o que você vive entre o momento em que respirou pela primeira vez e o segundo que se aproxima em velocidade desconhecida, quando ela te levará daqui.

Seja qual for a sua crença, ou até mesmo a ausência dela, tenha sempre em mente que cada dia é sim único, cada momento é valioso e cada ação impacta a vida de alguém, mesmo que apenas a sua. O que importará depois que você se for é o que você deixa para quem ainda tem algum tempo, antes da única certeza impossível de contestar.

Então eu te pergunto, sem mais delongas: que vidas você impactou positivamente? Quem teria certeza de ser amado por você, se a morte lhe batesse à porta neste exato momento? Que tipo de lembranças deixaria? Quais seriam os motivos que os seus teriam para te lembrar sorrindo? Você iria sabendo que fez tudo o que pode? Ou se arrependeria pelo não dito, não feito e não vivido?

Ainda dá tempo, vai lá...




GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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