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Não se feche o tempo todo

escrito por Mafê Probst

Não é fácil me abrir pro mundo. Sempre fui daquelas que ficam de escanteio, só observando tudo e todos, sabe? É mais fácil para mim ser um pouco anônima. Mantenho minha presença por perto, sou ótima em ouvir histórias e, vezenquando, até arrisco um conselho ou outro...
Tem dias que ser fechada demais me incomoda. Porque a gente não está bem todo tempo, não é? Aí seria bom se eu tivesse coragem de expor, pelo menos um pouquinho, o que sinto, para ver se alivia um pouco. Fui taxada de durona, mas a verdade é que eu só escondo tanto sentir. E nem é de propósito! Não queria que me vissem cheia de uma força que eu não tenho. É tudo mal maquiado nessa minha cara compenetrada, nessa minha timidez sempre presente e nessa mania de não soltar uma avalanche de palavras quando alguém próximo pergunta “Tudo bem?”.

Acostumei no automático de responder sempre “tudo”.

Percebi que encaro as pessoas. Quando respondo o ‘tudo’, quando escuto alguma história... Estou sempre encarando as pessoas. Percebi que, quando encaro as pessoas, tenho os olhos bem arregalados e urgentes; como se suplicassem para conseguir enxergar tudo aquilo que minha boca não diz. Ela até quer dizer, mas não sabe como.

Num dia ensaiei sair do automático. Meu coração estava pulando tanto que meu peito doía. Minha respiração estava entrecortada, minhas bochechas emanavam um calorão desenfreado e minhas mãos se contorciam trêmulas. Alguém chegou perto de mim, com aquele sorriso bonito no rosto. “Tudo bem?”, me perguntou. E eu, com os olhos súplicos: “mais ou menos”. Ensaiei sair, mas me puxaram para perto e me abraçaram apertado.

Não disse uma só palavra. E foi como se tivesse esvaziado tudo.

Acho que até posso ser fechada — mas não apara abraços que curam.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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