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O que fazer com o que restou de você?

escrito por Mafê Probst

Sempre gostei de catalogar tudo que sentia. Sei lá, gosto de certa ordem nas coisas da vida, porque não sei lidar com bagunças – emocionais muito menos. Então buscava catalogar todos os sentimentos. Datava, identificada, guardava no lugar que incomodava menos, porque todo sentimento – mesmo bem guardadinho – incomoda.

Aí veio você, desordenando tudo. Mostrou um tanto de coisas que arquivei errado, revirou lembranças e sensações, trouxe à tona um punhado de mim que eu tinha escondido no meio dessa mania de ordem extrema. Você sabia que estava desordenando tudo e sorria. Dizia: ‘menina, você é mais que esses sentimentos que guarda. Não vê que tá tudo errado?’.

Tive um faniquito no meio daquela bagunça. Sentei no meio de tudo que sentia e tentei, lentamente e com uma paciência infinita, colocar tudo no lugar. Você ficava de longe, observando e sorrindo. Dava um tempo e logo vinha outra vez, bagunçando tudo. Dizia: ‘menina, não adianta tirar e pôr no mesmo lugar. Não vê que tá tudo errado?’.

Chorei, confesso. Eu estava gostando do caos que você fazia quando vinha e odiava gostar dessa baguncinha boa. Vê o problema? A bagunça era boa. Comecei a curtir e jogar tudo para o alto. Parei de me importar em catalogar e deixei sentir por sentir, sem precisar rotular nada nem ninguém. Eu era um emaranhado de memórias e sorrisos – e por mim tudo bem.
Aí você foi embora, deixando tudo desordenado. Eu olhava para todas aquelas coisas que você disse que estavam no lugar errado, revirando lembranças e sensações tão novas. Tinha um punhado de mim que já não estava mais tão escondido. Sentei no meio de tudo e tentei, lentamente e com paciência infinita, colocar tudo no lugar. Recataloguei tudo, para fazer tudo certo dessa vez. Levei alguns meses – sem você voltar.

(...)

Sinto tua falta, confesso. Essa quase-ordem me deu outro faniquito, sabe? Eu tinha me acostumado com a tua bagunça-divertida, cheia de imprevistos e risadas muitas... Agora estou sentada no meio do nada, olhando cada sentimento catalogado e guardado no seu devido lugar. Mas tem o sentimento por você do meu lado, pulsando e sorrindo, que eu não faço a menor ideia onde — e se quero — guardar.


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