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O que fazer com o que restou de você?


Sempre gostei de catalogar tudo que sentia. Sei lá, gosto de certa ordem nas coisas da vida, porque não sei lidar com bagunças – emocionais muito menos. Então buscava catalogar todos os sentimentos. Datava, identificada, guardava no lugar que incomodava menos, porque todo sentimento – mesmo bem guardadinho – incomoda.

Aí veio você, desordenando tudo. Mostrou um tanto de coisas que arquivei errado, revirou lembranças e sensações, trouxe à tona um punhado de mim que eu tinha escondido no meio dessa mania de ordem extrema. Você sabia que estava desordenando tudo e sorria. Dizia: ‘menina, você é mais que esses sentimentos que guarda. Não vê que tá tudo errado?’.

Tive um faniquito no meio daquela bagunça. Sentei no meio de tudo que sentia e tentei, lentamente e com uma paciência infinita, colocar tudo no lugar. Você ficava de longe, observando e sorrindo. Dava um tempo e logo vinha outra vez, bagunçando tudo. Dizia: ‘menina, não adianta tirar e pôr no mesmo lugar. Não vê que tá tudo errado?’.

Chorei, confesso. Eu estava gostando do caos que você fazia quando vinha e odiava gostar dessa baguncinha boa. Vê o problema? A bagunça era boa. Comecei a curtir e jogar tudo para o alto. Parei de me importar em catalogar e deixei sentir por sentir, sem precisar rotular nada nem ninguém. Eu era um emaranhado de memórias e sorrisos – e por mim tudo bem.
Aí você foi embora, deixando tudo desordenado. Eu olhava para todas aquelas coisas que você disse que estavam no lugar errado, revirando lembranças e sensações tão novas. Tinha um punhado de mim que já não estava mais tão escondido. Sentei no meio de tudo e tentei, lentamente e com paciência infinita, colocar tudo no lugar. Recataloguei tudo, para fazer tudo certo dessa vez. Levei alguns meses – sem você voltar.

(...)

Sinto tua falta, confesso. Essa quase-ordem me deu outro faniquito, sabe? Eu tinha me acostumado com a tua bagunça-divertida, cheia de imprevistos e risadas muitas... Agora estou sentada no meio do nada, olhando cada sentimento catalogado e guardado no seu devido lugar. Mas tem o sentimento por você do meu lado, pulsando e sorrindo, que eu não faço a menor ideia onde — e se quero — guardar.


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