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O que ficou de nós

escrito por Mafê Probst

Fui pega de surpresa com a foto que apareceu em minha linha do tempo. Datada de um tempo atrás, com um sol bonito entrando pela janela, e umas palavras soltas na legenda. Parece tão mais tempo. Parece tão menos tempo. Me peguei pensando no tanto que vivemos e no tanto que passou; tentando preencher as lacunas vazias: o que eu fiz com os dias que vivi?
Eu não soube dizer se enrolei as horas, ou se vivi intensamente, ocupando meu tempo com o melhor de mim. Respirei. Peguei um calendário, peguei algumas memórias e recomecei a analisar... Perdi tempo, sabe? Constatei que muitos dias passaram sem eu nem ver; percebi que enrolei dia após dia para fazer atividades simples. Constatei que eu tinha tempo, se eu quisesse. Assustei com o tempo que passa, tão lento e tão depressa.

Aqui não queria falar de mim e da minha péssima mania de deixar as coisas para amanhã. Eu queria falar da gente: quem nos tornamos nesses dias que mal nos falamos? Será que somos mesmo dois estranhos ou o tempo já está trabalhando para colocar tudo no seu devido lugar, trazendo de volta a naturalidade que tínhamos antes de bagunçarmos tudo?

Eu não sei dizer. Lembrar você, lembrar nós dois, faz uma cosquinha gostosa no peito e traz uns sorrisos bobos no rosto, mas de um jeito leve e bonito, sabe? Não tem fiapo de mágoa, não tem tristeza, não tem saudade dolorida. A saudadezinha que vem é gostosa de sentir... Lembrança de uma época onde a presença era diária, onde o carinho perpassava pelas linhas trocadas diariamente.

Faz tempo, cê viu?



Secretamente, naquele dia, eu sabia que seria a última vez. Algo dentro de mim gritava em neon, com letras garrafais, um ADEUS nada bonito. Eu deixei cair as lágrimas que não choveram perto de ti, e deixei lavar toda a história, para que ela fugisse pelo ralo e nos deixasse um pouco em paz. Não parecia honesto segurar esse nó que éramos nós dois. Era tempo de deixar a linha romper, deixar o nó se desfazer e seguir cada um para seu lado, sem laço algum.

Confesso que doeu por muito tempo. Ontem, vendo datas, me doeu um cadinho também, embora tenha sorrido muito – eu guardo com carinho, num dos lados bonitos do coração, a versão bonita de nós; a versão bonita de mim que você roubou e fez tua. Não tenho vergonha de admitir, tampouco de esconder.

Ainda me alimento das lembranças e das memórias. Ainda coloco a saudade no plural. Ainda dou risada quando me vejo esbarrando nas coisas por aí. Ainda escrevo nossa história nas entrelinhas e no espelho embaçado do banheiro. Queria dizer que ainda escuto as mesmas músicas, mas algumas eu deixei de ouvir. Me descuido, me desloco, perco ar, então melhor deixar para lá. Deixar para depois, para mais tarde, quando tiver algum lugar para descansar.

Eu podia ter pego a imagem e excluído, mas não fiz. Encarei aquele sol, aquela janela e aquelas palavras que irão me lembrar, ano após ano, da versão de mim que você desabrochou; das memórias nossas que viraram cicatriz e tatuagens; das músicas que aninharam tardes inteiras; da escada rolante que tem cheiro de despedida; e dos silêncios em trocas de olhares – que diziam tudo, e ainda mais...



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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