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Será que as ampulhetas do tempo podem tornar um momento eterno?

Um plural do Ogro com a Mafê

— Me chame de Maria, porque sou simples. Não me chame de doutora, nem de doutora Maria, nem de doutora Maria Eduarda, nem de dona, nem de dona Maria e nem mesmo de dona Maria Eduarda. Me chame de Maria. Aliás, por favor, me chame de Duda!

Ela disse isso sorrindo ao mesmo tempo em que olhava fixamente para o arranjo de dentes-de-leão que tinha sobre a mesa. Sorriu ao ver a coincidência e lembrou-se dos dentes-de-leão que recolhia todos os dias, na volta do trabalho. Rotineira, gostava dos detalhes do cotidiano e se apegava neles. Procurava sorrir o tanto que podia e tinha esperança de roubar outros risos por onde passava.
O mundo mal sabia, mas, secretamente, todo sorriso que dava trazia bordado o nome do amor que a beijou no bar, no mês passado, naquela noite em que havia decidido beber para esquecer um fim de namoro e, tendo bebido muito, tendo dançado a noite inteira com alguns estranhos, lembrou apenas daquele rapaz de cabeça raspada, de barba grisalha, de perfume amadeirado, de sorriso aconchegante, daquele que, após suas últimas danças com ele, quando ela quis levá-lo para casa querendo uma noite de sexo selvagem, apenas beijou o seu rosto entregando-a bêbada para os amigos e dizendo:
— Cuidem dela e, quando ela estiver bem, digam a ela que aceito um café qualquer dia desses, mas que ela tome cuidado nas festas. Nem todos a verão em sua essência como eu a vi.

— Doutora dona Duda, o doutor João a aguarda na sala dele.

Ela entrou tímida. Sorridente, mas cabisbaixa. Nunca é boa a hora de entrar em contato com um advogado e, pois bem, aquela era uma conversa que Maria Eduarda não gostaria de ter... O fim do namoro não tinha sido fácil e ela poderia esperar tudo do ex, menos que ele vazasse a intimidade dos dois para quem quisesse ver e compartilhar. Sua vida rodava de mão em mão e Maria Eduarda decidiu processá-lo.



João abriu um largo sorriso ao a ver. Ela, por sua vez, vincou a testa. De onde ela o conhecia? O rosto, o riso, o tom de voz... Nada lhe soava estranho naquele homem. Percebendo o desconforto dela, o advogado mudou a postura. Pediu, delicadamente, que se sentasse, apontando a mão para a cadeira em sua frente.

— A que devo sua humilde visita, Duda? — questionou ele, acarinhando o nome dela com a voz.

Maria Eduarda o encarou, ainda sem entender. A voz, o sorriso, tudo arrepiava os seus pelos, tudo lhe soava familiar... Mas não, definitivamente ela não o conhecia. Conhecia?

— Duda? Você gosta de ser chamada assim ou prefere ser chamada de Maria Eduarda?

— Me desculpe, doutor João! Eu estava aqui pensando nos meus problemas que me trouxeram aqui, mas pensei que o conhecia.

— Sim, Duda! Nós nos conhecemos. Dançamos juntos há algumas semanas e conversamos por alguns minutos sobre as coisas da vida. Mas pode me chamar apenas de João. Ou ainda de Jão que foi como você me chamou naquele dia.

— Não. Eu não acredito que era você. Você era o Jão daquela festa! Meu Deus! Que vergonha!

— Não, Duda! Vergonha? Vergonha de que? De ter sorrido exageradamente? De ter dançado soltamente? De ter cantado, se divertido e extravasado? Não. Não sinta vergonha disso. Eu adorei tê-la conhecido naquela noite, tanto que deixei meu cartão com seus amigos. Você nunca ligou. Eu pensei que o destino talvez não quisesse que fosse assim. Mas olha nós aqui.

Maria Eduarda estava tímida e queria sair dali a todo custo. Ela lembrava de estar muito bêbada, lembrava de ter se rendido aos olhos felinos, mas jamais imaginou que o moço em questão estaria ali, vestido de terno e gravata, sentado atrás de uma imponente mesa de madeira e prestes a ouvir como a sua moral tinha sido devastada por causa de umas fotos e vídeos que seu ex fizera questão de espalhar. Como ela iria encará-lo? Pior: como ele iria encará-la? Maria Eduarda não estava pronta para ser julgada – outra vez. A vida não cansava de lhe dar porrada?

— Desculpe, doutor. Mas, dadas as circunstâncias de você já ter me conhecido, acho... Acho... Acho melhor eu deixar o assunto para lá. É constrangedor demais. Tudo. Isso. Aqui...

João correu e impediu que ela se levantasse segurando suas mãos. E quando ela tentou se levantar novamente, ele a abraçou da mesma forma como a abraçou no dia da festa, os dois braços por cima de seus ombros, a mão afagando seus cabelos, o peito estufado e perfumado aconchegando seu rosto agora cheio de lágrimas.

Porque o tempo para nesses momentos em que o amor conversa conosco em línguas desconhecidas? O que aquele abraço queria dizer? Porque a vergonha, o constrangimento, o medo estava passando e sendo substituído por uma paz que Maria Eduarda não sabia explicar?

— Eles perderam seu cartão, Jão! Meus amigos perderam seu cartão. Eu o procurei quando já achava que a minha procura tinha acabado. Eu o procurei...
— E achou, não vê? Agora você, por coincidência do destino ou não, está aqui. E... Se não foi por mim que veio, o que a traz?

João segurava uma Maria Eduarda soluçante num abraço apertado. Ela sentia o rosto corar e a vergonha preencher cada pedacinho de seu corpo, mas, ao mesmo tempo, sentia alívio e afago. Como pode um rosto semi desconhecido lhe trazer tanto conforto? Maria Eduarda se desmanchou todinha naquele nó que eram os dois, sentindo o coração em paz. Ambígua. A vontade de sumir ainda sussurrava em seus ouvidos, mas o desejo de se emaranhar e se esquecer, ainda que por minutos apenas, pulsava latente em seu peito.



— Jão, posso ficar aqui só mais um pouquinho? Posso esquecer de tudo que aconteceu, de que você é o advogado que eu procurei para meus problemas e de que a vida existe nos castigando fora desse seu abraço?

Jão, não mais João ou doutor João, nem respondeu. Apenas abraçou com mais força Duda, não mais Maria, nem Maria Eduarda, nem dona Maria, nem dona, nem doutora Maria Eduarda, nem doutora Maria, nem doutora, mas apenas Duda, porque era essa quem abraçava ele, era essa que, despida agora dos seus problemas, despida momentaneamente do mundo, despida da vida, apenas sussurrava baixinho, de forma quase inaudível:

— Será que as ampulhetas do tempo podem tornar um momento eterno?

Jão perdeu um suspiro entre os cabelos da moça que lhe devolvia o aperto do abraço. Ali não era preciso palavras. O peito dizia muito, o colo dizia mais. Com olhinhos miúdos e semicerrados, Jão olhou para o relógio em seu pulso e constatou que sim, o tempo era capaz de tornar um momento eterno.

Duda, por sua vez, tentava se controlar e segurar o choro. Umas lágrimas bobas, até tudo bem, mas deixar escapar um soluço? Não, era vergonha demais. Ser vulnerável sempre lhe soou vergonha, mas... Mas ali, naquele nó, ela parecia bem. Tudo parecia bem. Será que o momento poderia se eternizar? Com o peito encolhido e a esperança expandida, Duda encarou o enorme relógio de madeira que tinha na parede e, exclamando um sorriso, constatou que sim.

Eles estavam entregues e despidos de amarras e armaduras. E o tempo, ali, tinha parado para os dois.


Um plural do Ogro com a Mafê

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