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Tinha você por todos os lados

escrito por Mafê Probst

Dia desses você apareceu num sonho bom. É incrível como, sempre que você me vem em sonhos, eu esqueço tudo de ruim que foi dito, tudo de ruim que foi sentido, tudo que nos levou ao fim, numa tarde qualquer de sábado, entre uma chuva torrencial que inundava a cidade e outra que inundava meu peito. Quando você vem assim, se esgueirando pelas beiradas do pensamento, acordo com uma saudade gigante dos nossos dias azuis, bonitos, cheio de poesia, cerveja importada e pipoca de micro-ondas.

Fico remoendo a lembrança, confesso.
Eu sei que fui eu quem saiu pela porta da tua casa, eu sei que fui eu quem pontuou nossa história, mas foi você quem deixou que ela fosse pontuada. Sei lá, acho que parte minha queria que você me segurasse pelo braço implorando para eu não ir. Outra parte ficou ansiosa esperando você me calar com algum beijo sedento, cheio de segundas intenções. A gente poderia deixar o fim para lá e se perder nesses desígnios, amarrotando lençóis, quebrando tigelas, espalhando um pouco de nós por todos os cantos.

Apesar da escolha ter sido minha, apesar de saber que foi a melhor escolha, não consigo deixar de me inundar de saudade. É que ainda cultivo todas as melhores memórias, nossas melhores histórias e melhores risadas. É fato que uma boa parte de mim é toda tua, porque me transformei numa versão para te agradar e descobri, não tardiamente, que a versão que julguei ser tua era, na verdade, toda minha. Um empoderamento surreal, uma autoafirmação maravilhosa e auto estima que eu não tinha. Recuperei tudo para mim quando te disse adeus e descobri – tempos depois – que te dizer adeus foi a maior prova de amor próprio que me dei.

E dia desses você me veio como um sonho bom. Dia desses você apareceu pelas beiradas, se esgueirando sorrateiramente e me inundando inteira. Todo o sonho se tornou teu e tinha você por todos os lados. E tinha nós por todos os lados. E tinha um punhado de coisa boa, de mudança, de querer bem. É incrível como sempre que você me vem em sonhos eu esqueço tudo de ruim que foi dito, tudo de ruim que foi sentido, tudo que nos levou ao fim, numa tarde qualquer de sábado, entre uma chuva torrencial que inundava a cidade e outra que inundava meu peito...

Fiquei remoendo a lembrança, confesso.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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