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Uma página do meu diário – As crenças instaladas em mim


Eu não podia chorar. Desde criança ouvi frases que me ordenavam engolir o choro, não demonstrar a dor, esconder a tristeza. Não me deixavam chorar.

Eu não podia ficar com raiva. Me ensinaram que é feio, que “menina não pode sentir essas coisas”, “menina tem que ser delicada”. Não me deixavam extravasar a ira.
Eu não podia deixar o prato com comida. Mesmo estando satisfeita, eu tinha de comer tudo. Mesmo sendo tão pequena e não entendendo a proporção da comida de acordo com a minha fome, eu tinha que me empanturrar, mesmo que o estômago doesse, mesmo se a quantidade posta no prato fosse escolhida por um adulto. Eu tinha de comer mesmo contra a vontade.

Eu não podia falar sem pedir permissão. Em conversa de adulto eu não podia me meter. Durante o almoço eu não podia fazer comentários. No horário do jornal ou da novela, eu não podia contar sobre o meu dia e as novas descobertas na escola. Eu tinha de me calar.

Eu não podia escolher quando que eu queria brincar. Se me chamassem eu tinha de ir. Podia ser o vizinho que passava as horas da tarde implicando com meu excesso de peso da infância, mas eu tinha que brincar. Podia ser a prima que insistia em me diminuir pra se sentir superior, eu era obrigada a ir. E como eu não podia falar, não podia chorar, não podia demonstrar a ira, ninguém nunca compreendia os sentimentos de uma
criança retida.

Mas eu cresci e o estrago foi maior.

Eu cresci aprendendo a não respeitar meus sentimentos e a esconder minhas emoções. Cresci acreditando que eu tinha de ficar perto de todos aqueles com quem tinha certa ligação, mesmo essas relações me fazendo tão mal. Cresci na ilusão de achar que a minha fala não é importante, que o melhor mesmo é silenciar e obedecer aos comandos. Cresci ensinando meu estômago a sempre aceitar um pouquinho a mais e, consequentemente, cresci descontando todas as minhas frustrações na comida, já que eu não podia falar, nem demonstrar o que eu sentia.

Eu cresci e a vida me cobrou todas essas crenças erradas, passadas desde a infância, que eu nem acreditava que poderiam interferir tanto na minha personalidade. Sempre fui muito quieta, não sabia porque. Sempre fui muito ansiosa, não entendia porque. Sempre fui muito intensa e passei a crer que havia algo de errado comigo, que eu havia feito algo de errado.

Eu cresci e aprendi que é necessário se desconstruir. Desconstruir desde preconceitos a crenças. Nós somos formados a vida inteira por crenças que regem o nosso caminho. E uma hora ou outra a vida nos castiga pelas crenças negativas.

É necessário desconstruir. É necessário se virar do avesso e entender cada jeito, cada mania, cada defeito e cada frustração. É necessário se conhecer, se entender e, acima de tudo, se amar. E nesse caminho de autodescobrimento é fundamental que o amor seja nosso guia, porque só ele vai ser capaz de nos fazer compreender que as crenças instaladas em nós, na maioria das vezes, não são de nossas responsabilidades. Que as crenças instaladas em nós, na maioria das vezes, não são de responsabilidade das pessoas que nos ensinaram. As crenças, infelizmente (ou felizmente) são passadas de geração em geração e cabe a nós quebrar aquelas que não nos fazem bem.

A gente precisa de amor pra enxergar que a vida é feita de fases e de conflitos, que só serão resolvidos após a passagem de todo o clímax. Várias crenças nos constituem desde pequenos, várias delas nos formam, mas cabe a nós (somente) selecioná-las e continuar (ou não) carregando-as ao longo de nossas histórias.


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