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A moça virou vento

cabelo no vento
Se, a partir de agora, todo fim do dia se tornar cinza, eu veria sempre motivo. O céu tem tanto motivo para chorar quanto eu ou talvez ele apenas reflita toda a lágrima quieta que escorre tímida nos rostos de tantos que te sentem no vento. É, moça, agora tu és vazio. Tu és ar. Tu és vento. Entras numa van de cor branca quanto a porta se abre e o vazio permanece, sem teu sorriso, sem tua sombra de felicidade. Teus dedos não dedilham mais o celular, tu não provocas mais com teus comentários sobre futebol e não brilha mais estrelas, ao sorrir despreocupada, sempre que tocam teu nome, tentando te incomodar.

Chegas, então, numa cidade infernal. E tua ausência se maquia no vento abafado que quase não sopra, mas que, em virtude, resolveu te ser, só para constar. A van abre as portas, tu não desce. Não corre uma rua movimentada, rezando para não ser atropelada e nem precisarias atrasar os passos esperando que os outros se aproximassem na beirada da calçada, para atravessar também, e tu os seguisse, metros distante, feito criança que dá à mão aos pais, com medo de ir sozinha. Tu não demonstras, claro, forte feito tu finges que é.

Subirias uma rua de micro ladeira, apressada-quase-que-correndo para chegar a tempo de tua primeira aula, mas antes, checada rápida no banheiro para ver se tua franja está no lugar. E a porta da sala se abre, mas tu não vai passar. Será sempre aquela tristeza, tal como o fim de tarde cinza, que insiste em chover lágrimas roubadas de rostos saudosos. Vês? Tudo culpa tua, que resolveu se ausentar. O teu lugar permanecerá intacto, apenas para a imaginação dos que te cercavam.

Não sorrirás de nervosa, não baterás as unhas na mesa, ansiosa, por uma apresentação pública que se arrasta para chegar. Não respirarás fundo, ao levantar e se dirigir para a frente da sala, encarando um por um e então, começar a falar. E tua voz não chegará mais aos ouvidos, tremida e rápida — atropelada — para a tua vez, acabar. E acabou. Tudo acabou. Teu sentar com os pés para cima, abraçando as pernas, teu andar de miss simpatia ao entrar e teu riso de boa tarde, de boa semana, de bom fim de semana. As pastas carregadas em teu braço sobraram esquecidas. Tuas letras impregnaram-se na memória, nas cadeiras e nas páginas arrancadas, nos ‘ois’ grafite, nos ‘boa prova’ em um pedaço de papel rasgado.

Você perdeu-se. Perdeu-se para a gente, que fica só a imaginar tuas cores e teu semblante nessas ruas que te trazem a memória. Teu perfume grudou-se no vento, trazendo-te de volta, por segundos, sempre que esse vento abafado sopra. E as lágrimas caem, doloridas, de um céu que, agora, te pertence.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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