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Chega de faz-de-conta


Entendo que você estava fragilizado, perdido. Fingia-se de forte, descolado, um cara acima de qualquer sentimento: decidido, seguro de si, mas eu sei, lá no fundo, aquilo era só uma fachada No seu íntimo, você tentava enganar a si mesmo, destas mentirinhas que a gente conta pra nós mesmos para ver se cola e, quem sabe, a gente acredita e segue em frente sem maiores complicações, né?

Era isso: você estava saturado de estar onde estava. Infeliz com a vida que vinha levando, para ser mais precisa. Insatisfeito. Vazio. Sem propósito. Vivendo de mentirinha, como ouvi de você mesmo, mais de uma vez. Eis que ela surgiu no seu raio de visão... quem era ela, afinal? Ouvi tanto a respeito dela... Cheguei a duvidar que ela fosse real, às vezes, sabia? Tamanhas as histórias que ouvi acerca dela.

Segundo seu olhar, a menina mais linda que você já viu. Os olhos dela, segundo seu relato, radiavam vida plena, a plenitude que tanto lhe faltava, ela tinha de sobra. Segundo seu ponto de vista, a mulher mais sexy com quem você já cruzou. Segundo você, ela exalava sensualidade por todos os poros.

Aquele tesão pela vida, que você havia perdido há tanto tempo, brotava nela com tanta naturalidade... Segundo suas palavras, a garota mais inteligente que você já conheceu. Formada desde muito jovem, culta, viajou os quatro cantos do mundo, falava vários idiomas, era tão articulada, administrava impérios, escrevia, fazia mil coisas e tudo o que fazia era bem feito. No fundo, ela era tudo aquilo que você talvez não tenha chegado perto de ser. Bem-sucedida, dona de si. A segurança que faltava a você, pertencia toda a ela.

Ah, meu querido... pensei tanto em vocês dois dia desses... e sabe o que concluí? Que talvez ela nunca tenha existido de verdade. Ela, na versão que você criou, não existiu... nunca houve “ela” naqueles termos.

Ela deve ter sido uma criação da sua mente, a representação e idealização de tudo o que você desejou ter naquele momento caótico de vida que você vinha atravessando. Insatisfeito, procurou inebriar-se criando a personagem perfeita, a mulher ideal, a musa inspiradora... mas ela, de fato, nunca existiu. Você agarrou-se nela para se manter vivo, respirando. Só ela te dava fôlego, gás, para seguir adiante. Mas você não pode sobreviver agarrado a uma âncora irreal.

Penso que ela seja somente uma garota frágil, extremamente sensível, que precisou se fazer de forte para aguentar os tantos embates da vida. Talvez a imagem que as pessoas tenham dela seja mesmo ilusória e ela somente seja uma doce menina que precisa de alguém muito forte ao seu lado, que a abrace nas horas incertas. Só isso.

Portanto, para o seu bem, e para o dela também (afinal, é pesada demais a carga da perfeição colocada sobre ela, sabe, os papéis que não cabem a ela serem impostos a ela assim, descaradamente), para que vocês se mantenham sãos e saiam menos chamuscados de tudo isso, despeça-se dela agora, meu bem... dê tchau, diga adeus, a desonere deste posto que não é o dela, a dispense do papel de única criadora da sua felicidade inventada, desligue-se dela, retire-a de cena, a expulse de sua vida, afaste-a de você, a licencie deste cargo que nunca foi dela mesmo e parta ou deixe-a partir.

Despeça-se, de uma vez por todas, de quem nunca existiu. Você não é definitivamente o que ela precisa e ela não é quem você idealizou.

E, afinal, você já está grandinho demais para brincar de faz-de-conta...




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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