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Coração pirata

escrito por Mafê Probst

O coração da garota, assustado, batia acelerado e o tum-tum dele doía. Era um tum-tum sofrido, agoniado, angustiado. Ela apertava o peito, respirava fundo e dizia, mentalmente, pr'aquilo parar... Com o passar do tempo, o coraçãozinho foi se acalmando e se aquietando, até ficar quase inaudível. E o quarto ficou mais quieto do que estava até então.

Antes que pensasse em retornar a dormir, a garota foi pega de surpresa pelo próprio coração que batia no peito. De súbito, ele retornou a bater agoniado e começou a falar de suas dores, de seus amores e da raiva que sentia em amar.

A menina emudeceu e ficou ouvindo o que o coração tinha a dizer e chorou com as dores dele. O coração era corajoso, esperançoso, mesmo sabendo que essa esperança não o levaria a lugar algum. A audácia não o impedia de se apaixonar e ele se sentia feliz por estar apaixonado, embora não fosse correspondido:

— Sabe moça, as pessoas tem medo de se entregar por não saber se vão receber algo em troca. Ninguém dá, sem receber. E eu, não dou também. Meu orgulho não permite. Não digo que me apaixonei, por não saber se esse coração é capaz de se apaixonar por mim também... Corações, hoje em dia, são orgulhosos demais. E dois corações orgulhosos, não fazem história. Ninguém cede, todos esperam que alguém ceda... E isso me dói. Me dói querer dizer e saber que não posso. Me sufoca essa paixão escondida. De que adianta se apaixonar e não poder contar ao mundo que se apaixona".

Sem saber o que responder ao coração, a garota ficou quieta e esperou que o outro recomeçasse a falar. Assim como ela, ele aquietou-se. Pouco a pouco o coração foi se entregando... Frustrada por não ter mais com quem conversar e pela noite que não terminava, a garota deitou-se, suspirou fundo três vezes e, junto com o coração, adormeceu.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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