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E se?


E se, naquela vez, eu tivesse aguentado? Só mais um tempo, mais uns dias, outro punhado de segundos? Como a gente estaria? Que rumo a coisa toda tinha tomado? E se, ainda naquela vez, você não tivesse ficado? Se, só dessa vez, você assoprasse um “sinto muito” e tivesse voltado para casa? A que pé estaríamos? Quanto tempo nós duraríamos? Meses, anos? Como eu estaria? Será que eu teria mudado como mudei, sofrido o tanto que sofri, emagrecido só em respirar? Saberia eu a linha tênue da felicidade?

Mas não teve “e se”.

E se eu, naquela festa, tivesse desistido? Por causa da chuva, por causa do frio, por causa da fila. E se eu tivesse voltado, em quem eu esbarraria? Eu não teria ouvido a música, eu não teria curtido a batida, eu não teria o conhecido. Como eu estaria agora? Iria esbarrar noutra vida e seguido os dias? E se, aquele daquela vez, não tivesse me procurado? E se eu ficasse eternamente sem cortar os tês e pingar os is, eu teria descoberto que eu estava saciada e curada, ou teria empurrado a vida com a barriga, mesmo sabendo que estava muito longe daquela felicidade?

Mas não teve “e se”.

E se aquele menino não fosse tão perturbado a ponto de fazer a irmã sair do trabalho, no meio de uma tarde, para passear? E se ela tivesse atrasado e não tivesse o encontrado? E se eu não morasse lá naquela cidade e não pudesse ir naquele bar, depois de uma semana de conversa? E se não estivesse frio para um abraço? E se não fosse a copa do mundo? Ou os pés doendo ao final de uma balada? E se eu não tivesse perdido o emprego?

Mas não teve “e se”.

E se eu relutasse em vir embora? E se eu recusasse a aceitar o emprego? E se não existissem os pães de queijo todas as manhãs, ou as conversas sobre festas que me deixavam com uma pontinha de ciúmes? E se eu não fosse promovida no dia de um jogo maldito? E se não existisse o jogo maldito e o fanatismo por futebol? E se eu não tivesse te mandado a mensagem, depois de não ter conseguido te ver? E se você não quisesse respondê-la, ou não tivesse largado teus amigos para esbarrar nos meus? E se você não me esperasse até de manhãzinha para me levar embora? E se você tivesse perdido a coragem de dizer tudo que disse?

Felizmente, não teve o “se”.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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