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Ela, na passarela


Para mim era como um ritual semanal. A gente se encontrava “casualmente”, por poucos instantes, naquele dia específico da semana. Lá, em frente àquele prédio comercial, onde eu e você toda semana precisávamos retirar documentos importantes.

Eu fingia que não, mas aguardava ansioso a sua chegada, a sua presença. Porque queria, precisava, sentir seu perfume, seu sorriso... Era só isso: instantes... Que eu desejava que se eternizassem, mas eram só curtos períodos que eu usufruía da sua proximidade. Ah, menina, você não tem ideia do quanto te gosto, do bocado que te quero, do quanto significa para mim.
Sempre diálogos curtos, falando de amenidades, nada de muito profundo — o tempo, o clima, o trânsito, os processos que contextualizavam os documentos importantes que nos levavam até lá, os planos superficiais de cada um, separadamente, para o próximo fim de semana. Enfim... Mas, lá no fundo, eu te beijava com os olhos, te despia em pensamento, te arrastava dali e te levava para viver comigo, bem longe, onde ninguém jamais iria nos encontrar.

Pois é, acontece toda semana. Eu já me habituei com nosso momento. Mas, ontem, teve um quê a mais: você desceu do carro mais encantadora do que nunca, estacionou um pouco mais longe desta vez, porque naqueles horários de pico estava cada vez mais difícil encontrar vaga disponível perto do prédio que frequentamos. E então você veio caminhando, vagarosamente, em minha direção. Literalmente, você desfilava, menina...

Cabelos esvoaçantes, o sorriso já estava querendo brotar ali na tua boca, mostrando para mim seus dentes tão simétricos... Seu perfume já havia chegado até mim, embora você ainda estivesse há vários metros de me alcançar, me inebriando ali mesmo. Seu vestido florido, não me lembro bem o tom agora, algo entre rosa e lilás, balançava com o vento e você parecia nem se importar, como alguém que sabe e tem certeza absoluta de sua plenitude, mas não demonstra. Segura, meiga, delicada, sexy... Como pode alguém ser tantas em uma só mulher?

Cada passo que você dava transformava aquela calçada que nos separava em uma passarela, e o movimento que você fazia colocando um pé na frente do outro para caminhar (nunca te contei, mas amo seu jeito de andar) servia para te eternizar em minha memória. Eu olhei uma vez, tentei disfarçar, olhei para outro canto, lado oposto, mas não me demorei por lá mais que meros milésimos de segundos, porque meus olhos já tinham decidido a direção que eles queriam seguir: a sua.

Queriam te ver, precisavam te admirar.

Me rendi e fiquei ali te observando chegar, um simples admirador da mais bela obra da natureza, te olhei cumprir a sua trajetória lindamente por aquela passarela, te devorando sem você notar (ou será que notou?).

Sua chegada não poderia ser mais triunfal: a semente do sorriso que estava brotando há instantes atrás transformou-se no mais belo riso que esta humanidade já viu. Seu perfume, que já tinha dado indícios antes da sua chegada, se perpetuou ali, me desnorteou por inteiro, e sua voz ecoando um bom dia tão doce e gentil, soou como música para meus ouvidos. Seus olhos cor de mel, sempre iluminados e radiantes (já me peguei pensando neles nos meus devaneios, e concluí que eles são seres à parte, tem vida própria, falam por si mesmos). Seu beijo no meu rosto e abraço informal me cumprimentando, como de costume, aquele casual “oi” que costumávamos dar mutuamente, teve, ontem, um significado a mais, depois do seu desfile pela passarela...

Eu te prendi um pouco mais de tempo no meu abraço, quis estender aquele momento o quanto pude, e, enquanto você dizia que estava cada vez mais desafiador achar uma vaga ali perto para estacionar, eu só pensava em te responder: “Foge comigo, agora! Seja minha, para sempre! Vamos desfilar juntos, pela eternidade!



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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