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Em algum lugar no tempo

escrito por Mafê Probst
Descobri que não é o amor que move o mundo e tal descoberta me fez indiferente a tudo aquilo que acredito. E o que acreditava era o que me fazia ser. E desacreditando, deixo de ser, então. É como um final de semana que começa bonito-de-doer e termina tempestade. Daquelas, com direito à raios e trovões e chuvas. Muita, muita chuva! Chove ali fora, chove em meu quarto, chove aqui dentro do peito. No rosto, gosto de lágrimas. Olhos vermelhos, orgulho despedaçado em mil pedaços. Fui, não sou mais. Desfizeram-me. Em uma única marretada sem propósito, o que me doeu mais. E fora isso, silêncio.
Olho, minuto a minuto, para a rua vazia de um feriado incolor. Outra vez. É quietude demais para um coração que grita. Lamento pela música que nunca mais irá tocar e pela minha reação a ela que ficará no esquecimento. A chuva passa, sempre passa, não importa os danos que esta cause, a intensidade com que vem e com que vai embora, mas sempre é tempo de recomeçar. Reconstruir. Reconstruir-se. Fiz uma vez, faço de novo. Com o tempo, se pega a prática. Na verdade, penso em não mais reformar, não mais tentar, não mais ser quem fui. Mudar, radicalizar.

A vida não é justa... As pessoas não são honestas e tudo aquilo que eu pensei mover o mundo escorre, ralo abaixo, junto com essa chuva modorrenta ali de fora. Primavera não é a estação das flores, não para mim. Nunca foi, por que dessa vez iria ser? E assim, desabrocho. Desmancho-me pétala por pétala, que cai junto com o orvalho amargo dessa selva. No fim, tudo gira em torno de um propósito só e o castelo de areia sempre desmorona na água do mar, depois de uma, duas ou três tentativas. Até que ele decide que não quer mais ser castelo e transforma-se em milhões de grãos de areia, livres, outra vez.


Enquanto eu, aqui, fico só com o silêncio. Dos filmes não vi, da música que não mais vai tocar...

Um gosto de lágrima no rosto
Palavras murmuradas
Que eu quase nem ouço
[Em algum lugar no tempo - Biquini Cavadão]




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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