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Fugir de mim mesma nunca foi uma opção


Tem um espinho fazendo ninho em meu peito. Ele me rasga sem jeito a cada inspiração veloz. A dor já me calou a voz, e no silêncio eu imagino meu coração cantar outra vez feito passarinho. Fiz um curativo em minha asa e tenho seguido de mansinho, fingindo não ver o sangue que vaza pelo tecido da minha roupa. É só uma estampa colorida – afirmo com voz rouca a cada interrogação. E então caminho com calma e com espinho, passo no lugar de voo, seja lá pra onde for.

Esse espinho um dia foi flor.

Quando soprou o vento do destino, uma semente de amor na terra do meu peito resolveu germinar. Eu fingi não ver nascer o primeiro broto, afirmei por aí que era só um ramo torto, até que meu coração inteiro floresceu de bem-querer. Não tive pra onde correr: fugir de mim mesma nunca foi uma opção. Deixei o amor tomar o coração e tomei o cheiro dele como meu calmante diário. Foi quando todos os dias se tornaram primavera.

Agora tem um espinho fazendo inverno em meu peito.

Cratera onde havia raiz, granizo no que era flor. Qual vento soprou o tempo em que a gente era feliz? Dessa tempestade de gelo não consigo mais achar o amor que ele me entregou selado em uma promessa de eternidade. Procuro em cada floco que de neve que cai. Perduro tentando agarrar o calor que se esvai. O sol sucumbiu ao cinza em pleito. No escuro, só tem me restado o silêncio e um espinho dentro do peito.

Mas, não se engane. Não quero que me levem essa dor. Porque esse espinho, Seu Moço, foi o único pedaço dele que me restou.


Sâmia louise
Sangue de baiana, profissão de jornalista e coração de escritora. Movida por fones de ouvido e canecas de café. Sensível, intensa e minha. Mais fantasista que Alice e mais feminista que Dado Dolabella. Na enquete sobre a maior invenção da humanidade, votei em cerveja e Doritos.

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