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Mal me quer, bem me quer


No quintal da casa da vovó havia plantas e flores por todo o lado, de todo tipo, cor, tamanho, formato e perfume. Eu adorava sentar na mureta baixinha que separava a casa dela da casa da Dona Wanda, a vizinha de longa data, quase membro da família, aliás. Pegava as flores que estavam já caídas no chão, formando um tapete multicolorido, e começava a viajar nos meus pensamentos...bem me quer, mal me quer, bem me quer...Nossa! Isso já foi há tanto tempo.

Era lá nas flores da vovó que eu ia buscar as respostas que tanto precisava: mamãe havia dado bronca só em mim enquanto meu irmão ficara ileso. Será que ela gostava mesmo de mim? Recorria ao bem me quer, mal me quer. Minha melhor amiga não dava mais bola pra mim, só queria saber de andar pra cima e pra baixo com a aluna nova que chegara recentemente de outra cidade. Lá ia eu correndo para o quintal da vovó apelar para o bem me quer, mal me quer... O menino lindo da oitava série nem olhava mais para mim como na outra semana, o que será que havia acontecido? Será que não me paquerava mais? Bem me quer, mal me quer...
E, em todas as ocasiões, tinha uma similaridade no desfecho: eu não sossegava enquanto a resposta não atingisse o que fosse plenamente satisfatório, o que, em todos os casos em questão era, obviamente, um “bem me quer” bem explícito.

Caso a última pétala terminasse com o indesejado mal me quer, bastava eu me abaixar, pegar outra flor do chão e recomeçar aquele jogo. Às vezes era rápido, outras vezes a bendita resposta que eu queria demorava mais a chegar, mas era só uma questão de tempo, de escolher a flor com o número certo de pétalas, de insistir um pouco mais e pronto! Viva! Tudo resolvido! Todos me queriam bem e eu poderia voltar para casa feliz da vida.

Agora, aqui na vida real, no tempo atual, fico muito confusa com situações dúbias, comportamentos duvidosos, sentimentos líquidos, de pensar uma coisa e descobrir outra, de não ter certeza dos sentimentos de quem é tão importante para mim. As pessoas tem medo de demonstrar, receio de arriscar, preferem a zona de conforto, não mostram mais empatia, escondem emoções, não escancaram o que vai de verdade na alma delas.

Confesso que hoje bateu uma nostalgia daquele tempo, sabe, meu bem? De ter onde buscar todas as respostas para minhas dúvidas; de sentir o cheiro bom do jardim da vovó; de ter um lugar sagrado, só meu, para me refugiar; mas, principalmente, de ter sempre a certeza do amor das pessoas por mim.
Como posso saber se você gosta de mim, então?

Você não deixa nada claro e cansei de interpretar entrelinhas, de tentar, em vão, traduzir seus sinais, de escutar o que dizem seus silêncios e de decifrar todos os seus muitos hiatos. E, o pior de tudo, eu não tenho mais o jardim da vovó para recorrer.

Então, me diz, vai: você "mal me quer ou bem me quer"?

Meu bem-querer
É segredo, é sagrado
Está sacramentado
Em meu coração
Meu bem-querer
Tem um "quê" de pecado
Acariciado pela emoção
[Djavan, Meu Bem Querer]





ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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