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Pelos olhos de Guimarães


A gente se preocupa demais com os fins e se esquece de vivenciar os meios.

Tive uma professora na faculdade que vivia parafraseando Guimarães Rosa para me alertar do maior erro que eu poderia estar cometendo com a minha própria vida. E eu vim aqui parafrasear Rosa, também aos olhos de Taiza, como a primeira frase desse texto revela.

Professor tem esse estranho dom de reconhecer seus alunos e suas angústias... Ela se angustiava com a minha. Sempre me preocupei demais com o fim e sofria demais com as dificuldades que o meio me fazia enfrentar, mas ela avisava que eu iria sentir falta disso tudo depois – e tinha razão.

Nunca soube lidar direito com o presente, tenho essa mania insistente de remoer o passado e desejar imensamente o futuro com tempos melhores. O presente sempre me torturou. Os tropeços do cotidiano e os impasses do trajeto faziam-me (e por vezes ainda fazem) acreditar que a linha de chegada guardava boas recompensas. E não é que esse pensamento esteja errado, porém toda linha de chegada reserva consigo novos começos e diferentes trajetos, os quais trarão novos desafios e outras dificuldades. Afinal isso é viver, não?

Taiza sabia disso e, sabendo, usava Guimarães Rosa para me alertar. Porém eu, na altura dos meus poucos 20 anos vivenciados na espera da chegada, fui capaz de ouvir, sem conseguir entender de fato o que isso significava.

Hoje, beirando aos 23 e poucas primaveras depois, consigo compreender perfeitamente. É que agora a linha de chegada foi ultrapassada e eu percebi que, depois, ainda há um contínuo me aguardando. Ainda há descobertas, desafios e dificuldades. Ainda há tudo aquilo que existia na época da faculdade, a diferença é que não há mais Taiza tentando me alertar do maior erro que eu poderia estar cometendo com a minha vida.

Se tem algo que eu aprendi nesses poucos anos sendo professora é que muito dos ensinamentos transmitidos aos meus alunos não irão fazer sentido para eles hoje. É só depois de um tempo, de um amadurecimento e de um lindo desabrochar, que as minhas falas farão sentido. Taiza já sabia disso (aliás há poucas coisas que ela ainda não sabe) e não se importava em me ver angustiada toda semana, mesmo com seus inúmeros alertas.

Ela ainda me acolhia e me recebia com aquele semblante pacífico, transmitindo a certeza de que tudo ficaria bem. E de fato ficaria, não porque as coisas se ajeitariam após a linha de chegada, como eu sempre acreditei, mas porque ela sabia que chegaria o dia que eu entenderia o que ela sempre me falava: a gente se preocupa demais com os fins e se esquece de vivenciar os meios.

Os meios — todos eles — têm suas delícias também, Taiza sabia disso, talvez só não saiba que ela própria foi uma das delícias do meu meio.



fernanda amorim
Taurina com ascendente em touro. Intensa, sonhadora e teimosa. Formada em letras, professora de língua portuguesa, apaixonada pela vida e amante das palavras.

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