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Um arranhãozinho de nada

escrito por Mafê Probst
Não consigo compreender essa tua mania de fazer silêncio. Ok, respeito. Mas não me peça para entender. Muito menos concordar. Não vê que, desse jeito, está tudo errado? Tudo bem, posso não ter sido muito legal quando disse que estava indo embora, mas em momento nenhum fui desonesta, sabe? Comigo, contigo. Fiz aquilo que julguei ser melhor para a gente naquele momento. A decisão já tinha sido tomada antes mesmo de ouvir a opinião alheia a respeito.
Talvez tenha mentido quando falei de outra pessoa. Talvez nunca tenha havido alguém além de eu e você, mas me tornei egoísta demais para aceitar me dividir contigo. Vê? Consegue enxergar o problema? Saí pela tua porta, porque precisava recolher meus pedaços perdidos no caminho, pois você nada fazia além de ver, contornar e deixar que me virasse sozinha. “Foi você quem se quebrou? Limpe sozinha a bagunça”.

Teu dar de ombros foi me machucando pouco a pouco; um arranhãozinho de nada, que se transformou numa ferida profunda e inflamada que, num último cutucão, rasgou inteira. O amor deve ter escorrido por ali. E doeu por três dias. Mas teve tanta gente cuidando, soprando, abraçando leve e cantando músicas novas e bonitas e doces, que me recuperei tão logo, quase na mesma intensidade que criei uma armadura contra você, porque estava com medo de me machucar mais. Então, tuas palavras doces vieram vencidas. Teu carinho, tardio. Teu olhar de piscina, raso. E aqui dentro, vazio.

Não ia suportar, entende? Poderia ter tentado solucionar, ou ter esperado amolecer de novo outra vez, mas eu me senti tão forte comigo mesma, que decidi por me dar um tempo. Não procuro outros braços, não quero me perder n’outros suspiros, nem pretendo entrar em cada bar de esquina que me chama para uma cerveja. Teus amigos me soam patéticos ao olhar com caras de idiota por não me verem numa determinada festa, não me encontrarem com determinadas pessoas. Não me encontrarem. E ponto. Por favor, veja que te disse toda a verdade possível quando contei meus motivos de ir embora. Precisava me fortalecer, de alguma forma doentia e solitária e não vejo nada de depressivo nisso. É bom, sabe? Leve como só um sopro sabe ser. Eu arrasto meu tempo, me curto nos meus momentos. Leio demais, escrevo de menos e não tenho pensado em quase nada. E tem bastado, por enquanto.

Mas consegue ver que tá tudo errado? Vê? Não vê?

Esse teu silêncio todo, que respeito, tá estreitando ainda mais nossas possibilidades. Se é que deixei pra trás alguma possibilidade perdida, enquanto descia naquele elevador azul e estreito. A ferida ainda latejava, eu só fingia que não. Sempre foi isso. Um fingir que era forte, que era capaz, que suporto. E não suporto nadinha não, rapaz.

Eu preciso é de colo. De gente que cuida, que se importa, que se preocupa. Um par de mãos de cada lado do rosto que me faça enxergar lá na frente, que desvie a atenção dos meus pés calejados de tanto tentar carregar o mundo sozinha. O teu silêncio tem só feito é distanciar laços, aumentar ainda mais o hiato que existe entre a gente. Vai virar nó e, quando tu me encontrar na vida e, provavelmente, fingir que não me conhece, sentirei um soco na boca do estômago e vai doer demais, moço, mas não ofuscar meu sorriso.

Será o ponto final depois das vírgulas todas, das reticências, das preposições, das suposições, das expectativas. A certeza que acertei quando me lancei no mundo.

Um fim. E ponto.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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