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A Soltadora de Pipas

A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento...
Bob Dylan (Blowin’ in the wind)

Ela sempre fora moleca, sapeca. Quando criança, adorava brincar com bolinhas de gude, jogar futebol, andar de skate e empinar pipa. Talvez influência do irmão mais novo e companheiro de vida, com quem passara toda a sua infância.

Ah, como era gostoso todo o processo de fazer a pipa com as próprias mãos, varinhas de madeira, papel de seda colorido (será que alguma criança ainda faz isso hoje em dia?) e depois gastar o final de semana inteiro soltando pipas no ar. Um jeito delicioso de não ver o tempo passar.

Naquele dia, ao empinar pipa, algo mágico aconteceu: ela saiu flutuando, começou a desprender os pés do chão e pôs-se a voar. Deixou que a pipa a guiasse pelo céu e seus arredores. Lá do alto, pôde ver tanta coisa que, estando aqui em terra firme, não conseguia. Talvez haja realmente coisas essenciais que só vemos quando nos permitimos tirar os pés do chão.

Viu as pessoas do avesso, visualizou o que vai dentro delas. Enxergou empatia. Um se colocando no lugar do outro, sentindo o que o outro sente e, por isso, tantas tristezas sendo evitadas.

Viu amizade. As pessoas segurando as mãos umas das outras, nos momentos difíceis, mas também sorrindo e vibrando juntas nos momentos descontraídos. E os desentendimentos sendo evaporados.

Vislumbrou sinceridade. Ninguém tinha mais medo de expor sentimentos, de dizer a verdade, de ser autêntico. Tantas decepções sendo deletadas. Avistou paixão. As pessoas emanando uma energia boa, uma luz que vinha lá de dentro, iluminando e aquecendo tudo e todos em volta. Todo o tédio acabou. E o tesão pela vida voltou a brotar.

Viu amor. Mas não desse amor só falado, pronunciado ao léu, da boca pra fora, sem prática, ação ou atitude. Amor de verdade. E, então, o mundo como é hoje se desfez na frente dela, ou melhor, abaixo dela, dando lugar a um cenário perfeito. E, na presença do amor verdadeiro, o mundo se transformou naquilo que estava mesmo predestinado a ser: o nosso nirvana.

Abriu os olhos assustada quando o despertador tocou, a tirando daquele sonho gostoso. Olhou em volta para se certificar de que não iria cair do céu, quando, então, viu-se em sua própria cama. Pena ter sido somente um devaneio noturno.

Mas a moça soltadora de pipas acordou diferente naquela manhã: mais feliz, mais esperançosa. Sentiu que poderia ter mais confiança e fé na humanidade. Que nem tudo estava perdido e que sempre há tempo para novos sentimentos e lindos recomeços. Que quando há boa vontade e boa intenção, há tudo. Mas que intenção sem ação é em vão. E ação sem boa intenção também não é bom.

Que quando nos permitimos ver com os olhos do coração, tudo fica mais bonito. Que quando ousamos descolar os pés do chão e ir mais longe, além, mais alto, tudo pode acontecer. A magia está lá, longe do solo e bem perto dos abismos. E, por fim, entendeu que todas as respostas já estão soprando no vento. Basta irmos lá apanhá-las.



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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