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Amor de irmã


A vida não me presenteou com uma irmã de sangue. Não tive uma companheira, em casa, para brincar de bonecas ou de casinha. Fui isenta de ter quem me emprestasse suas saias e botas descoladas ou que me ajudasse a arrumar o cabelo para uma festa. Não tinha, dividindo o mesmo teto que eu, a irmã para quem eu confessaria meus mais íntimos segredos de menina. Com todo o amor incondicional que sempre dediquei a meu irmão, ora bolas, tinham coisas que eu só poderia contar para uma irmã. Coisas de menina, mesmo.

Ainda bem, como compensação, o tempo foi se encarregando de fazer chegar até mim as irmãs de alma, de vida, companheiras de trajetória. Foi trazendo para perto quem precisava se achegar, quem veio caminhar comigo. Amigas do colégio, da faculdade, do estágio, do trabalho, da vizinhança, da família, dos inúmeros cursos que fiz. Irmãs amigas, avós, tias, primas.
Mulheres que passaram pela minha vida e, mesmo sem saber, contribuíram para eu ser quem sou e por eu estar exatamente onde estou agora. Algumas só estiveram de passagem rápida, outras ficaram um tempo e saíram de cena depois. Outras perduraram um tantinho mais. Algumas perpetuam até hoje. E, quem sabe, outras estejam até o fim da minha caminhada comigo.

Mais importante, porém, que o tempo e duração, é a intensidade da conexão, o significado que me trouxeram e o legado e marcas que deixaram em mim. Tantas foram verdadeiros divisores de águas. Algumas são o motivo das minhas mais doces lembranças e a razão das minhas memórias mais saudosas.

Irmãs que chegaram fantasiadas de outras coisas. De professoras de português ou de dança, de mãe do amigo do meu filho, de terapeuta, de colega de profissão, de recepcionista do consultório, de inimigas ou rivais e tantas mais. Chegaram, às vezes, de mansinho, outras vezes fazendo estardalhaço. Chegaram por motivos nobres ou por meras desculpas esfarrapadas. Enfim, não me recordo muito bem como muitas delas entraram em minha vida, mas não sou capaz de esquecer o que elas deixaram em mim quando partiram.

Sempre me ensinaram alguma coisa. Algumas foram exemplos de quem e como eu queria ser um dia. De coisas que eu precisava melhorar em mim. Outras me serviram de modelo de como eu não queria ser de jeito algum. Todas vieram só para agregar, somar. Até as que me machucaram, obviamente são parte de mim também. Crescemos também pela dor, pelas decepções e traições. Me fizeram mais forte, mais humana. Mais eu.

E o que dizer daquelas que eu nem conheci pessoalmente, mas que estão tão intimamente ligadas à minha vida, conversamos, trocamos ideias, nos ajudamos, como se estivéssemos lado a lado? E estamos mesmo, eu acho, não fisicamente, mas conectadas por algo muito maior: pela inspiração, pela vontade, pelos sonhos, pelas palavras, pelo amor a algo comum, pela sororidade.

E eu, que me sentia quase órfã e filha única, de repente, me encontro cercada de irmãs de vida, que me impulsionam, me aconselham, me dão puxão de orelha quando mereço, me chacoalham, me incentivam, me motivam, me iluminam. Porque, afinal, somos irmãs, viemos do mesmo lugar, somos frutos da mesma semente e somos capazes de, juntas, sermos novas sementes melhoradas, geradoras de coisas nobres e sublimes.

Sou, hoje, tão grata à vida por todas as irmãs que ganhei pelo caminho. Tomara que todos tenham a sorte de sentir, ao menos uma vez na vida, como é o amor de irmã e como é sentir o abraço de uma irmã, pois é dentro dele que a gente tem a sensação de estar, literalmente, em casa.




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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