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ESTÁ NA HORA DE REVER NOSSO CONCEITO DE MATERNIDADE


Aprendi, sem ter gerado nenhum filho, que ser mãe nada tem a ver com vínculo sanguíneo, dar a luz ou pagar despesas. Bom, não somente isso. Não se trata do quanto você subtrai pelos seus, mas sim, do quanto você soma na vida deles.

Já acompanhei algumas — muitas — amigas grávidas, já virei noites satisfazendo desejos sem sentido algum e já segurei mãos em crises de dor. Ainda assim, não posso dizer que sei como é estar na pele de alguém que carrega uma vida inteira dentro de si. Nunca tive um ser que dependa única e exclusivamente de mim. Ainda. Mesmo assim, aprendi que ser mãe não é uma comédia romântica de sessão da tarde. Por vezes vi filmes de terror e dramas de arrancar do meu íntimo muito mais do que lágrimas, apenas observando angústias, faturas, idas e vindas ao hospital, contrações, berros e cabelos sendo quase arrancados por falta de paciência. Aprendi que ser mãe também é perder a cabeça vez em quando.

Aos seis anos segurei um bebê no colo pela primeira vez — ao menos é a lembrança mais antiga que possuo — e posso jurar que no mesmo instante o teto que me cobria se abriu e raios de sol invadiram a sala. Maria Fernanda, a "Nandinha" — de quem fui madrinha de coração — me olhou e sorriu. Tive, ali, a primeira certeza da minha vida: eu quero ser mãe. Não naquele momento, claro, nem nos anos que se seguiram, mas dali em diante observei todos os cuidados que ela recebia e fiz questão de participar de cada segundo que me era permitido. Trocar fraldas nunca foi um desafio, acordar no meio da noite para ajudar a fazê-la pegar no sono também não. De alguma forma, desde os seis anos comecei a treinar — sem perceber — para um destino que me parece cada vez mais próximo. Ainda bem.

Anos depois tive a enorme, gigantesca e inigualável alegria de ser madrasta. Não como essa dos desenhos, mas sim a "boadrasta". Novamente me vi segurando em meus braços alguém que me olhava com doçura e que pronunciava meu nome no meio de um sorriso, como se eu fosse a pessoa mais iluminada da Terra. Ela me ensinou a ser mais doce e eu a ensinei a não ter medo do escuro. "Se não fosse o escuro da noite nós não conheceríamos as estrelas." — me lembro de dizer. Tive o prazer de acompanhar metades dos anos que hoje ela carrega e hoje, mesmo longe, descobri que um amor puro assim não se vai com o tempo nem a distância. Tive um vislumbre do que é ser mãe quando ela me sorriu pela primeira vez e em meus olhos choveu um tanto.

Ainda assim, tenho plena consciência de que a maternidade vai muito além de alguns anos, sorrisos fofos e medo de escuro. É ter medo de não ser suficientemente boa, de errar a temperatura do leite e do banho, de dar o conselho errado, de escolher o caminho difícil e quebrar a cara depois. E repito, ser mãe nada sem a ver com subtração. Não é deixar de ser mulher para ser mãe, é ser ambas como for possível. Sei que a vida tenta nos convencer a pensar diferente, mas isso eu afirmo com conhecimento de causa e admiro quem o faz.

A questão é que não existe uma receita. Não há fórmula sobre como uma mãe deve ser ou agir. O que existe é um baú cheio de segredos que se revelam diariamente. Alguns difíceis de lidar, impossíveis de conciliar e outros gostosos de saborear. E enquanto escrevo esse texto, clichê, pra desejar feliz dia das mães, avós, tias e — porque não? — pais que são mães, meu olhos se enchem de lágrimas. Aprendi que ser mãe também é deixar chover no meu rosto de vez em quando.

Desejo, apenas, ser metade da mãe que conheci na infância. Desejo, do lado de cá da tela, que todas as mães se sintam abraçadas, beijadas, amadas e agradecidas. Gratidão é a palavra do dia. Até o Facebook sabe disso. Mas não agradeçam com presentes apenas, mas sim com afeto, cuidado e carinho. E colo, que vez em quando os papéis se invertem e não há mal nenhum nisso. Aprendi, com o passar dos anos, que ser mãe é saber ser filha também.


***


Este texto foi escrito em 2018, quando eu ainda não tinha metade da noção do que é a individualidade de cada mulher, então quero aproveitar o momento para fazer um alerta: cada mãe tem a sua realidade. Não compare. Barrigas, enxovais, desenvolvimento do bebê, tempo do processo de adoção, quantidade ou qualidade dos brinquedos, da escola, das roupas, de nada. Precisamos, cada vez mais, entender que mãe não são seres superiores. São mulheres, humanas, falhas, confusas, abandonadas, acompanhadas, sozinhas, inseguras, empoderadas, conservadoras, e por aí em diante…

Então que tal olharmos com mais cumplicidade e compreensão para todas as mulheres mães e, também, para aquelas que optam por não serem? Que tal deixarmos a comparação de lado e abrirmos os braços para a real sororidade?

Fica aí o meu pedido de dia das mães.




GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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